Recentemente, discuti nesta coluna o fenômeno dos documentários sobre crimes reais que fazem sucesso nas plataformas de streaming. Entre os profissionais que entrevistei, havia um consenso: a reinterpretação de um homicídio, sequestro ou qualquer ato violento só se justifica se gerar uma reflexão significativa.
Reconheço que serviços de streaming e canais abertos são mídias diferentes, destinadas a públicos diversos, mas nenhuma diferença entre elas explica a forma como a violência é abordada nos programas jornalísticos policiais da televisão, como Primeiro Impacto (SBT), Cidade Alerta e Balanço Geral (Record), e Brasil Urgente (Band). Com a chegada do Aqui Agora, no SBT, a presença desse tipo de conteúdo nos canais tradicionais se intensificou ainda mais.
Com o pretenso intuito de informar, esses noticiários misturam a dramatização da violência a uma performance de indignação, com apresentadores que clamam por respostas das autoridades sobre os casos que cobrem. Muitas vezes, a cobertura desses programas carece de sobriedade, especialmente em relação a tragédias urbanas como enchentes, incêndios e desabamentos. O tom alarmista empregado em algumas situações dá a impressão de que a realidade é mais sombria do que realmente é.
Programas dessa natureza costumam ser os primeiros a perder a noção quando um crime com potencial para atrair audiência aparece. Eles exploram interminavelmente esses casos, passando horas no ar repetindo informações já conhecidas e especulando sobre desdobramentos, desconsiderando um princípio essencial do bom jornalismo: distinguir entre interesse público e interesse do público.
É compreensível que haja uma demanda por esses programas policiais nas grades de programação, já que conseguem conquistar uma audiência fiel. No entanto, é importante lembrar que os anunciantes geralmente evitam esse tipo de atração. Assim, os pontos no Ibope não se traduzem necessariamente em receita, o que se tornou um grande desafio para muitas emissoras.
Enquanto há uma vigilância moral rigorosa sobre representações de diversidade e comportamento humano em produções ficcionais, essa mesma fiscalização não se aplica de maneira tão rigorosa aos programas policiais, que exploram tragédias humanas e exageram na violência. A influência desses noticiários é muito mais prejudicial para os telespectadores do que qualquer novela ou série. Está na hora de as emissoras repensarem seus valores. Chega de tantos programas policiais na televisão!