James Gunn se tornou um verdadeiro combatente do desemprego. Ele iniciou a direção da segunda temporada de “Pacificador”, da qual também escreve todos os episódios, enquanto ainda supervisionava a produção de seu “Superman”. Além disso, ele tem a responsabilidade de gerenciar a DC Studios e uma casa cheia de tarefas por fazer. Essa fase de transição, que conecta os fios do novo universo DC sob a liderança de Gunn, fica evidente com o retorno do anti-herói vivido por John Cena.
Para entender melhor, é importante contextualizar. Gunn transformou “Guardiões da Galáxia”, personagens obscuros da Marvel, em um fenômeno de crítica e bilheteira em seus dois longas-metragens. No entanto, antes de iniciar a produção do terceiro filme, em julho de 2018, um blogueiro da extrema direita decidiu retaliá-lo, escavando tuítes antigos de humor controverso que ele havia postado uma década antes. A Disney, então, o demitiu.
Após um clamor público que reverteu essa decisão e o reintegrou como diretor do terceiro “Guardiões”, Gunn se aventurou na concorrência com “O Esquadrão Suicida” em 2021, seguido do spin-off “Pacificador” para a HBO. Embora ambos os projetos operassem como criações independentes, eles continham referências às decisões tomadas por Zack Snyder nos filmes da DC.
Entretanto, a dinâmica mudou. Em novembro de 2022, Gunn e seu colaborador, Peter Safran, assumiram o recém-criado DC Studios na Warner, tornando-se os responsáveis pela produção de filmes, animações e séries baseadas nos personagens da editora. Ele rapidamente se dedicou a criar a série animada “Comando das Criaturas” e, em seguida, focou em “Superman”, que se tornou a prioridade do estúdio e o ponto de partida para o novo relançamento da DC. Definitivamente, férias não parecem ser uma opção para ele!
Com a chegada da segunda temporada de “Pacificador”, era necessário finalizar os ajustes na nova DC, eliminando os últimos vestígios da administração anterior. Um desafio era como resolver o desfecho da primeira temporada: após impedir uma invasão alienígena e, de certa forma, salvar o mundo, o Pacificador teve um encontro com a Liga da Justiça — a versão de Zack Snyder. Aquaman (Jason Momoa) e o Flash (Ezra Miller) interagiram com o personagem.
Gunn encontrou uma solução direta para eliminar as referências aos heróis: nos primeiros minutos da nova temporada, relembrando os eventos anteriores, ele trocou qualquer menção à Liga da Justiça pela Gangue da Justiça, equipe que aparece em “Superman”. A mesma cena com a Liga foi repetida, mas agora com o Senhor Incrível, Superman, Supergirl, Lanterna Verde e Mulher-Gavião, com os dois últimos, interpretados por Nathan Fillion e Isabela Merced, até trocando algumas palavras. O passado foi reescrito, e ponto final. Ou, como Gunn costuma dizer: “O que for legal, fica, o que não usarmos, não conta como parte do cânone”.
As referências a “Superman” não param por aí — a chegada da aventura do Homem de Aço ao streaming, enquanto o filme ainda está nos cinemas, é justificada pelo diretor como parte da conexão com a nova temporada de “Pacificador”. Afinal, mesmo após salvar o mundo, Chris Smith (John Cena), o Pacificador, continua em apuros. Desejando provar seu valor entre os seus pares, ele é rapidamente humilhado e rejeitado pela Gangue da Justiça — Fillion, Merced e Sean Gunn, no papel do bilionário Maxwell Lord, são os responsáveis por sua entrevista desconfortável.
Os outros membros do Projeto Borboleta, cruciais para o sucesso da missão na primeira temporada, não estão em melhores condições. Leota Adebayo (Danielle Brooks) ainda está desempregada, pagando o preço por ter exposto as atividades ilícitas do grupo sancionado por sua mãe, Amanda Waller (Viola Davis), que ainda não retornou triunfantemente à DC sob a direção de Gunn. Emilia Harcourt (Jennifer Holland), por sua vez, é rejeitada por todas as agências de segurança do governo e desconta suas frustrações em brigas de bar.
O único que se mantém empregado é John Economos (Steve Agee), que agora tem a missão de vigiar o Pacificador. Essa tarefa vem da agência A.R.G.U.S., liderada por Rick Flag Sr. (Frank Grillo), que está determinado a responsabilizar o Pacificador pela morte de seu filho, Rick Flag Jr. (Joel Kinnaman), que foi assassinado na missão narrada em “O Esquadrão Suicida”. O tabuleiro montado por Gunn, com todas as suas conexões, é revelado lentamente.
A trama ganha velocidade quando Chris, utilizando um depósito dimensional inventado por seu pai (Robert Patrick), descobre que o local é um vasto portal para realidades paralelas. Em um desses mundos, ele não matou seu irmão na infância, não disparou contra seu pai (como ocorreu na primeira temporada) e é visto como um herói. Diante de tantas derrotas (nem mesmo uma orgia gráfica em sua casa consegue animá-lo), Chris se pergunta se deveria experimentar uma vida diferente — mesmo que isso signifique tomar o lugar de outra versão de si mesmo em um universo onde ele finalmente é feliz.
O multiverso, um recurso narrativo em alta no cinema de super-heróis, é usado por Gunn de forma menos grandiosa, mantendo seu humor ácido. Ao tornar a história mais pessoal e evitar uma ameaça global, o cineasta eleva os riscos — e a empatia — nesta nova temporada de “Pacificador”. A decisão de não dirigir todos os episódios também se mostrou acertada: Greg Mottola (“Superbad”) intensifica o humor, enquanto Peter Sollett e Alethea Jones mantêm a narrativa em movimento.
Um dos grandes trunfos da série continua sendo o desenvolvimento de personagens secundários, que ganham profundidade sem a pressão da expectativa dos fãs. Steve Agee, por exemplo, viu seu John Economos, que tinha uma participação breve em “O Esquadrão Suicida”, crescer significativamente em “Pacificador”. “Sinto-me um veterano acidental”, ele brinca. “O destino de Economos é um mistério para mim até que eu receba o roteiro.”
Uma das novas adições nesta temporada é a agente ciborgue da A.R.G.U.S., Sasha Bordeaux, interpretada por Sol Rodriguez. “A escala das filmagens é impressionante”, a atriz comenta. “É semelhante à produção de um filme, mas fracionada.” Quando perguntei se a conexão de sua personagem com o Batman, que é forte nos quadrinhos, poderia se repetir neste novo universo da DC, ela foi rápida: “James ainda não mencionou a relação de Sasha com o Batman. Ainda!”.
Por fim, o verdadeiro destaque de “Pacificador” continua sendo John Cena. O ex-astro da WWF revela nuances dramáticas que oscilam entre explosões de raiva e momentos de emoção genuína, pela primeira vez recebendo um pouco de afeto. Em uma produção tão grandiosa, parte de um complexo quebra-cabeça que envolve a construção de um universo cinematográfico compartilhado, é gratificante perceber que o foco de James Gunn não está na pirotecnia, mas sim nas pessoas. Por isso, desta vez, a série pode realmente decolar.