Um dos filmes mais comentados da temporada de prêmios de 2025, “O Brutalista”, estreia nesta sexta-feira (22) no Prime Video. Com dez indicações ao Oscar, a produção levou para casa três estatuetas, incluindo Melhor Ator para Adrien Brody, além de Fotografia e Trilha Sonora. Este épico de três horas explora temas como imigração, o sonho americano e a ambição desmedida.
No cerne da narrativa complexa, destaca-se a performance excepcional de Guy Pearce, 57, que concorre ao prêmio de Melhor Ator Coadjuvante por seu papel como Harrison Van Buren, um industrial rico e carismático que se impressiona com o talento do protagonista, László Tóth (Brody), um arquiteto judeu refugiado da Hungria.
Entretanto, por trás da imagem de sucesso, Van Buren esconde uma faceta obscura, que culmina em uma cena de violência sexual contra László, um dos momentos mais impactantes e debatidos do filme. Em uma entrevista exclusiva para a Splash, Pearce revelou que a maior dificuldade foi compreender a motivação por trás desse ato. “Filmar não foi tão complicado, mas entender foi desafiador”, confessou o ator.
“Em cada conversa que tinha com Brady [Corbet, o diretor], eu sempre começava com isso. Eu dizia: ‘Quero revisitar aquela cena. O que realmente estamos explorando? É somente sobre poder? É homossexualidade reprimida?’ E foi um pouco de tudo isso”, explicou.
A primeira leitura do roteiro foi um choque para Pearce. “Lembro de ter que voltar e ler novamente para notar se havia algum indício. Compreendi que, até certo ponto, meu personagem estava apaixonado por László.”
Um personagem complexo e contraditório
Ao falar sobre a construção de Van Buren, Pearce elogiou o roteiro de Brady Corbet, destacando que o personagem já estava bem delineado. “O texto tinha uma profundidade que facilitou meu trabalho. A chave foi descobrir a humanidade por trás da repulsa.”
“Ele caminha em uma linha tênue, sendo uma espécie de homem ridículo. Ele finge ser confiante, poderoso e bem-sucedido, e até é, em certa medida. Mas, por baixo, há uma série de inseguranças e sentimentos amargos e invejosos. Trabalhar com isso foi incrível”, contou.
Para Pearce, essa ambiguidade era essencial. “Você sente uma gama de emoções em relação a ele, desde simpatia até repulsa. Ele é um personagem complexo, assim como nós. Era importante criar momentos em que o público se sentisse repelido e outros em que pudessem pensar: ‘Acho que posso entender esse homem’.”
Um épico para ser absorvido
Sobre a longa duração do filme, que inclui um intervalo, Pearce defendeu a escolha. Para ele, o tempo é necessário para mergulhar na grandiosa narrativa. “Brady tem um estilo muito particular que permite um aprofundamento nas reações dos personagens. Ao tomar esse tempo, o público se acomoda de uma maneira diferente.”
Ele também deixou um conselho: “O intervalo é uma oportunidade para processar o que você acabou de assistir, absorver e, em seguida, seguir para a segunda metade. Evitem o celular durante esse tempo. Apenas sentem, deixem o filme entrar — isso é realmente valioso.”
Contrastes de realidade
A experiência de imigração retratada na obra ressoou profundamente com Pearce, que recordou sua hesitação em ir para os EUA em 1994 para promover “Priscila, a Rainha do Deserto”. “Minha mãe era cínica em relação ao sonho americano. Muitos atores que conhecia diziam ‘vou para Hollywood’, e eu pensava: ‘Por que ficar desempregado em Hollywood quando posso estar desempregado na Austrália?'”, brincou. “Não escapei do Holocausto como László, então minha situação era diferente.”
Essa lembrança o levou a relembrar sua visita ao Brasil, que marcou sua trajetória. “Viemos ao Brasil para divulgar ‘Priscila’ em 1994 – passeamos por São Paulo, Rio e depois Búzios. Foi maravilhoso. Esse é um filme do qual me orgulho”, concluiu.