Aqueles que acompanham o cenário audiovisual perceberão que as produções inspiradas em crimes verídicos estão em alta nas plataformas de streaming brasileiras. Recentemente, a HBO Max lançou a série documental “O Assassinato do Ator Rafael Miguel”, que rapidamente se tornou a mais assistida, enquanto o Prime Video prepara a estreia de “A Mulher da Casa Abandonada”, uma adaptação do podcast de mesmo nome. Para explorar o fenômeno do true crime no Brasil e os desafios de sua produção, nossa coluna conversou com especialistas que atuaram nesse campo.
Guilherme César, roteirista das séries “PCC: O Poder Secreto” e “O Assassinato do Ator Rafael Miguel”, destaca que a popularidade dos documentários de true crime se deve à habilidade de contar histórias reais com a mesma dramaticidade da ficção. Isso implica em desenvolver personagens complexos, arcos dramáticos e reviravoltas que proporcionam ao público uma experiência emocional intensa, semelhante àquela vivida em narrativas fictícias. O verdadeiro crime nos toca profundamente não apenas pelo apelo sensacionalista, mas também por nos incitar a refletir e desenvolver empatia, questionando a moralidade diante da desordem que nos cerca. Assim, apesar de seu caráter muitas vezes doloroso, o true crime pode servir como um espaço de reflexão que promove o crescimento social.
Outro aspecto intrigante do gênero é a forma como ele revela que o “mal” pode se infiltrar em nosso cotidiano de maneira sutil e quase imperceptível. A ideia de um “grande vilão” frequentemente não é suficiente para explicar os crimes; existem teias de banalidade e conivência que possibilitam as tragédias. Essa representação torna o gênero ainda mais perturbador, pois não assistimos apenas para desvendar o “assassino”, mas para entender como uma comunidade pode normalizar o inaceitável.
No entanto, também há um desafio significativo: garantir que as histórias de crimes reais não alimentem uma cultura punitivista, que busca construir uma sociedade ainda mais violenta e que compromete os direitos humanos.
Tainá Muhringer Tokitaka, roteirista de “A Mulher da Casa Abandonada” e “Caso Evandro”, observa que a segurança pública é uma das principais preocupações da população. Essa insegurança gera um constante interesse por narrativas de crimes, que nos ajudam a sentir que não estamos sozinhos em nossa vulnerabilidade. No Brasil, um país marcado pela violência, a atração pelo true crime deve continuar enquanto essa realidade persistir. Além disso, a cultura brasileira tem uma forte conexão com o melodrama, o que torna a cobertura de crimes uma parte intrínseca do nosso entretenimento. Para os roteiristas, o desafio reside em transformar um crime real em uma narrativa envolvente, mantendo a ética e a sensibilidade, já que por trás de cada crime há pessoas e dores reais.
Adriana Ceccheti, Diretora Sênior de Produção de Conteúdos de Não-Ficção da WBD Brasil, ressalta que o streaming possibilitou a criação de produções locais de true crime, permitindo contar nossas histórias de forma atraente, diferente das reportagens policiais. O sucesso desse gênero se dá pelo desejo de compreender a mente criminosa e, muitas vezes, pela busca de autodefesa, especialmente entre o público feminino. Na WBD, há um compromisso em abordar casos que gerem discussões relevantes na sociedade, em vez de explorar o crime de forma gratuita.
Guto Barra, diretor e roteirista de “Pacto Brutal: O Assassinato de Daniela Perez” e “Bateau Mouche: O Naufrágio da Justiça”, aponta que o Brasil sempre teve uma curiosidade natural por crimes, seja através de novelas ou de jornais sensacionalistas. No entanto, as produções de true crime trouxeram uma nova linguagem que combina elementos de entretenimento, como cinematografia e trilha sonora marcantes. O desafio maior é transmitir emoção na narrativa, algo que pode ser mais difícil no Brasil, onde as pessoas tendem a ser mais reservadas em compartilhar suas experiências. Em contraste, o público americano, mais acostumado à cultura do show business, é mais propenso a se abrir e participar desses relatos, permitindo uma narrativa mais envolvente.