Preta Gil, que foi homenageada hoje no Rio de Janeiro, sempre expressou sua fé e espiritualidade, entrelaçando diversas religiões, especialmente durante sua jornada de tratamento contra o câncer. Em uma postagem no Instagram em maio, ela compartilhou: “Sou imensamente grata a Deus, aos meus orixás, às minhas santinhas e a todas as energias espirituais que me trouxeram de volta”.
No tributo virtual, Babalorixá Célio D’Omolu, que guiava Preta em seus rituais de candomblé, escreveu um texto emocionado em sua memória. “O Orun ganhou uma linda estrela, tão radiante quanto foi essa alma na terra e na vida de todos que tiveram a sorte de conhecê-la”.
O filho de Preta também se despediu com palavras tocantes, trazendo elementos do candomblé: “Estenda-se no infinito, mãezinha. Nós, que somos de axé, sabemos que a morte não é um fim”.
Como o candomblé percebe a morte? Para essa religião, a morte é encarada como uma continuidade. “Acreditamos que a vida é um ciclo, onde nossas histórias, memórias e narrativas permanecem vivas, sendo transmitidas às futuras gerações”, explica Sidnei Nogueira, pai de santo da Comunidade de Compreensão e Restauração Ilê Asé Sangó (SP) e doutor em semiótica pela USP.
A ética ancestral é um dos fundamentos do candomblé. Isso implica que cada pessoa deve viver de forma a ser lembrada ou esquecida. “A ideia é que todos nós devemos deixar marcas significativas para serem seguidas e recordadas por aqueles que vêm depois de nós”, afirma.
Entre nossos antepassados, há aqueles cuja vida merece ser celebrada por sua ética, contribuição ao bem comum, por serem bons pais ou mães, e por sua luta pelos direitos humanos. Essas memórias perduram e iluminam o caminho do bem, segundo Sidnei Nogueira.
O termo “Orun”, mencionado por Célio D’Omolu, refere-se à dimensão espiritual no candomblé. A religião não concebe a ideia de “céu e inferno”; a ancestralidade é representada pelo Orun. “Neste Aiye [Terra, mundo físico], é a única esfera em que desfrutamos do corpo físico”, esclarece Nogueira.
Os rituais funerários, conhecidos como axexe, tradicionalmente envolvem o sepultamento do corpo para aqueles que são iniciados, e não apenas devotos. “Preta era uma devota, então não há violação de princípios. Essa foi uma decisão dela”, explica. “Embora o candomblé não favoreça a cremação, é permitido desde que a pessoa realize outros rituais prévios”, complementa o coordenador do Instituto Ilè Ará.
A tradição exige um ritual de restituição dos elementos que tomamos emprestados da natureza — água, ar, fogo e terra — tudo que nos compõe. É uma forma de devolver à natureza e garantir a manutenção da memória existencial da pessoa, evitando seu esquecimento, segundo Sidnei Nogueira.
Após o sepultamento, os rituais podem se prolongar por vários dias. “O candomblé é uma religião dinâmica, onde todas as interações são possíveis”, conclui Nogueira.