“Caos, mas um caos sob controle.” Essa era a ideia que me acompanhava enquanto conversava com Adam Sandler e seus companheiros de elenco em “Um Maluco no Golfe 2”. A camaradagem e as brincadeiras entre Sandler, Christopher McDonald e Julie Bowen refletem perfeitamente a atmosfera do novo filme, que se assemelha a uma reunião entre amigos e familiares.
Podemos ir além: “Um Maluco no Golfe 2” é uma verdadeira máquina do tempo que nos transporta diretamente para os anos 90, uma época em que o cinema ainda era o local ideal para que desconhecidos compartilhassem risadas em uma sala escura. Nesse período, Adam Sandler, que ganhou destaque no “Saturday Night Live”, lançou dois filmes que o catapultaram ao estrelato: “Billy Madison” e “Um Maluco no Golfe”.
Enquanto a essência cômica de Sandler continua intacta – seu estilo, ao mesmo tempo delicado e explosivo, tornou-se uma marca registrada – a maneira de se conectar com o público evoluiu. O primeiro longa-metragem estreou em 1996; o novo, por outro lado, é um produto do seu tempo, lançado diretamente na plataforma da Netflix, com a qual Sandler mantém um contrato exclusivo.
Esse sinal dos tempos não passou despercebido por Kyle Newacheck, o diretor do filme. Para ele, assumir a direção de “Um Maluco no Golfe 2” é como um passeio pelos estúdios da Universal que revive a mágica do cinema. “Eram personagens que eu só tinha visto na tela, objetos que eu só conhecia pela imagem, como o taco de golfe original usado por Adam”, relembra. “Foi como filmar em um local sagrado, mas um lugar que me faz feliz em fazer parte.”
A conexão de Newacheck com o filme, conhecido como “Happy Gilmore”, vai além. “Tinha apenas 12 anos quando vi o original com meu irmão e ficamos encantados com o quanto aquilo era engraçado”, continua. “Mas, ao mesmo tempo, eu me perguntava como aquele filme havia sido feito, quem eram aquelas pessoas e como conseguiam fazer aquilo, porque parecia muito divertido.” Essa experiência moldou seu desejo de se tornar diretor de comédias: “O bad boy que queria jogar golfe fazia sentido para mim, porque ele era agressivo como eu; eu socava buracos na parede!”.
Nos anos 90, a comédia era uma experiência compartilhada nas salas de cinema. Hoje, os filmes do gênero parecem ter sido sequestrados pelas plataformas de streaming, que oferecem o conforto de assistir no sofá de casa. “Mas eu tenho plena confiança de que é possível lançar uma comédia nos cinemas e atrair as pessoas para fora de casa”, enfatiza o diretor. “Acho que as pessoas estão cometendo um grande erro ao não estrear esses filmes nas telonas; estamos perdendo a magia da risada compartilhada.”
Christopher McDonald, que retorna ao papel do golfista profissional Shooter McGavin, não acredita que a experiência coletiva do cinema esteja morta, mas reconhece que os hábitos do público mudaram com a Netflix, que reúne amigos e familiares em torno de uma TV de 64 polegadas. “Ao mesmo tempo, quando vamos ao cinema, sempre tem alguém tossindo ou gritando lá atrás”, alerta. “Não é divertido; isso aconteceu comigo, fui ver um filme e uns caras começaram a fazer bagunça.”
Sandler interrompe a fala: “Eles estavam brigando atrás de você? Você pediu para pararem?” A resposta vem rápida: “Eu quase levantei para falar isso, mas não valia a pena.” McDonald ainda acrescenta com seu estilo característico: “A experiência coletiva ainda existe com os grandes blockbusters”, admite, finalizando. “Mas o nosso vai bombar na Netflix!”
É preciso dedicar algumas palavras a Adam Sandler. Ele é genuinamente reservado, inclusive em coletivas, e parece mais à vontade ao lado de amigos, complementando suas respostas. Em 2015, durante um evento de lançamento de “Pixels” e o segundo “Hotel Transylvânia”, tive a oportunidade de conversar com ele sem a formalidade ou o cronômetro de uma entrevista, e percebi o quão gentil e atencioso ele é – ao mesmo tempo, extremamente focado em seu trabalho.
Neste momento, podemos observar duas facetas de Adam Sandler. Uma delas, mais rara, é a do ator sério, envolvido em projetos que fogem da imagem que ele projeta, como no sofisticado “Embriagado de Amor”, de Paul Thomas Anderson, e no recente “Joias Brutas”, onde demonstrou seu considerável talento dramático, merecendo não apenas uma indicação ao Oscar, mas talvez a estatueta em si.
A outra faceta, sem dúvida a mais popular, é a do astro das comédias ingênuas, que se baseiam em conceitos absurdos e piadas diretas – e por isso, extremamente bem-sucedidas. Em 2014, a Netflix firmou um acordo com sua produtora, a Happy Madison, e desde então Sandler transformou o streaming em sua casa. “Os 6 Ridículos” deu início a uma série de projetos com dramas esparsos, equilibrando uma sequência de comédias que, mesmo que nem sempre artisticamente satisfatórias, estão frequentemente entre as mais vistas da plataforma.
Com “Um Maluco no Golfe 2”, não será diferente. Uma tragédia leva Happy Gilmore a abandonar o golfe, mas décadas depois ele retorna aos campos para derrotar um investidor desonesto que pretende alterar – e arruinar – as regras do jogo. O filme está repleto de participações especiais, com humor duvidoso (mas definitivamente eficaz) e um lado emocional que é sempre honesto. É um prato cheio para quem aprecia uma dose de Sandler, como um churrasco de domingo: barulhento e saboroso.
Nesse ponto, decidi deixar que a conversa flua com Sandler, McDonald e Bowen – apenas acompanhando e permitindo que eles se expressem à vontade. Perguntei se havia alguém que eles realmente queriam incluir no filme, e antes que alguém pudesse elaborar uma resposta sensata, a conversa se desenrolou mais ou menos assim:
Adam: O pai da Julie. Ele sempre dizia que queria ter pelo menos uma linha de diálogo, e Julia respondia: “Papai, por favor, me deixa em paz.”
Julie: Meu pai é apaixonado por golfe, adorou o primeiro filme e vai adorar este também. Ele sempre dizia que poderia dar uma passada no set em Pine Valley…
Adam: Por que você não deixou?
Julie: Ele não é ator.
E assim, é hora de passar a pipoca.