“Vermiglio – A Noiva da Montanha” é um desses filmes que, mesmo tendo conquistado prêmios renomados, como o do Festival de Veneza 2024, e recebido indicações em eventos como o Globo de Ouro 2025, não conseguiu se destacar no Oscar (onde foi pré-finalista na categoria de filme internacional) e passou despercebido pelo público em geral. Recentemente, fez sua estreia no Brasil, sendo exibido durante a Festa do Cinema Italiano em junho. No entanto, sua proposta merece mais visibilidade e discussão, sendo reconhecido como um dos grandes representantes do novo cinema europeu, que se inspira nos clássicos, mas incorpora uma visão contemporânea através de seus jovens cineastas.
A diretora Maura Delpero é uma das novas vozes do cinema feminino italiano, finalmente recebendo a atenção que seu trabalho cheio de originalidade merece. Ela retrata uma Itália que foge do óbvio, distante dos estereótipos, criando uma narrativa fascinante e emocionante, que se destaca pela ausência de melodrama e sentimentalismo.
A história, embora simples, é profunda, revelando em seus detalhes, entrelinhas e silêncios as contradições e nuances do amor em tempos de guerra. O amor aqui não se limita ao romance, mas abrange a compreensão de que, como disse o ator Giuseppe De Domenico, “na guerra, você é você, mas, ao mesmo tempo, você não é mais você”, ressaltando que nem tudo é literal em um mundo que constantemente desafia a lógica, a ética e a moral para a sobrevivência.
No final da Segunda Guerra Mundial, Vermiglio, uma pequena aldeia nos Alpes italianos, enfrenta o conflito da melhor forma possível. Enquanto os homens estão na linha de frente, as mulheres e os idosos permanecem, dividindo as tarefas entre os afazeres domésticos e o trabalho que antes era realizado pelos seus entes queridos.
Uma família que se destaca na comunidade é a dos Graziadei. O patriarca, Cesare (Tommaso Ragno), professor local, lidera uma casa repleta de mulheres. Sua preferida é Flavia (Anna Tahler), uma talentosa pré-adolescente que ele decide enviar para estudar em outra cidade. A adolescente Ada (Rachele Potrich), curiosa e observadora, é vista como limitada pelo pai, condenada a ajudar a mãe nas tarefas diárias.
A mais velha, Lucia (Martina Scrinzi), é introspectiva e melancólica, mas fascinante. A volta de Attilio (Santiago Fondevila), um jovem local, da guerra, traz consigo o amigo siciliano Pietro, e é então que Lucia se apaixona pelo “forasteiro”. Interpretado por Giuseppe De Domenico, Pietro desertou ao lado de Attilio, não para escapar da luta, mas da barbárie da qual se recusaram a participar.
O amor entre Lucia e Pietro torna-se central na narrativa, mas a chegada do siciliano é como a aparição de um objeto estranho na tranquila comunidade de Trentino-Alto Ádige. Em meio à beleza das montanhas, a chegada de Pietro suscita fascínio e estranheza entre os moradores. Para Lucia, ele representa uma chance de mudança e um futuro mais iluminado, enquanto para Pietro, Lucia simboliza o sol em sua vida, após ter enfrentado pesadelos precoces.
Lucia e Pietro se casam e ela engravida, enquanto um futuro cheio de promessas se desenha para eles. Porém, após o fim da guerra, Pietro deve retornar à Sicília para informar sua família que está vivo. Ele nunca mais volta, e Lucia descobre que ele já era casado e tinha um filho em sua terra natal. A partir desse momento, seu pesadelo começa, e ela se vê diante de uma vergonha avassaladora, enfrentando um futuro que jamais esperou.
A beleza de “Vermiglio” reside na passagem das estações, que acompanha os pequenos e grandes dramas de personagens que, embora comuns, são universais. Maura Delpero, que tem raízes em Vermiglio, consegue traduzir a máxima de Tolstoi, abordando toda a humanidade em suas emoções, dilemas éticos e experiências de amor e desamor, enquanto narra não apenas a história de uma aldeia, mas também a de sua própria família.
“Eu nunca digo que é sobre minha família por respeito à privacidade, mas aconteceu com a família do meu pai e com muitas outras na região após a guerra. Eu queria prestar homenagem a essas mulheres corajosas, que se casaram com forasteiros, tiveram casamentos belos, mas também enfrentaram grandes desilusões”, revelou a cineasta em uma conversa com o Splash durante o Festival de Veneza.
Maura, que perdeu o pai há alguns anos, sonhou com ele ainda menino durante a guerra, trazendo consigo a ideia de “Vermiglio”. Esse sonho, junto com as histórias de suas avós, tias, mãe e outras mulheres de sua comunidade, inspirou sua vontade de contar essa história. Sua direção é precisa e tranquila, proporcionando o tempo necessário para que o público absorva cada olhar, cada passo e cada palavra dos personagens.
Em seu segundo longa-metragem, Maura se revela uma cineasta madura, capaz de contar mais uma narrativa sobre a Segunda Guerra, trazendo uma perspectiva nova e refrescante. Não é surpresa que tenha conquistado o segundo prêmio mais importante do Festival de Veneza 2024, o Grande Prêmio do Júri, e sido o grande vencedor do Davide di Donatello, levando os prêmios de melhor filme, direção e roteiro.
Por seus prêmios e, principalmente, por ser uma obra tão singular, “Vermiglio” merece ser descoberto pelo público brasileiro. Atualmente em exibição, o filme estará disponível para aluguel no streaming e no Filmelier+ em agosto.