As relações frequentemente tensas entre as torcidas organizadas de futebol começaram a ser moldadas de forma mais direta pela lógica das facções criminosas há nove anos, em dezembro de 2016. Naquele momento, o PCC (Primeiro Comando da Capital), a principal facção criminosa de São Paulo, emitiu um de seus primeiros comunicados — as chamadas ordens ou “salves” — especificamente direcionado às torcidas do Santos, Corinthians, São Paulo e Palmeiras.
No documento, a facção estabeleceu que confrontos que resultassem em mortes entre torcedores não seriam mais aceitos, mesmo envolvendo torcidas de outros estados. Caso os embates se tornassem incontroláveis, os líderes das torcidas seriam severamente responsabilizados, uma referência ao “tribunal do crime” do PCC, que pune as infrações às regras impostas pela organização.
Um áudio que circulou na época deixava claro: “Não é pra ter briga nenhuma de torcida. Nem morte, nem confusão, nem nada… O cara que brigar, vai apanhar. E o cara que matar, vai morrer. É ordem do PCC, entendeu?”. Essa mensagem abrangeu todas as quatro torcidas da capital, seja na cidade ou no interior, reafirmando que não haveria espaço para confrontos.
A decisão do PCC foi, em parte, uma reação a um assassinato cometido três meses antes, em setembro de 2016, quando Daniel Jones Veloso, membro da Gaviões da Fiel, foi brutalmente morto por torcedores da Mancha Verde. O incidente ocorreu em Itapevi, quando ele e sua namorada regressavam de um jogo. Em 2022, os responsáveis pelo crime foram condenados a 24 anos de prisão.
Outro episódio que motivou o PCC a agir foi o assassinato de José Sinval Batista de Carvalho, em abril de 2016, durante uma briga entre torcedores no bairro São Miguel Paulista. Carvalho, que não pertencia a nenhuma torcida organizada, foi atingido por uma bala perdida. Sua morte, junto com outras violências do dia, levou as autoridades a implementar a medida de torcida única nos estádios para os clássicos do futebol paulista.
Apesar da proibição expressa do PCC, a violência continuou. Em março de 2017, Marcelo Ventola, um criminoso ligado ao PCC, emboscou e matou Moacir Bianchi, um dos fundadores da Mancha Verde. Ventola, que alegou que a execução foi um desentendimento pessoal, não sofreu punições severas dentro do sistema prisional, uma quebra das normas do PCC.
Após o assassinato de Bianchi, o PCC reiterou suas ordens para evitar mortes entre torcedores. Em fevereiro de 2023, as torcidas Mancha Verde, Torcida Jovem e Independente publicaram notas oficiais em redes sociais, pedindo que seus membros evitassem brigas. Essa ação ocorreu após uma emboscada da Mancha Verde contra a Gaviões da Fiel, que resultou em feridos, o que motivou um novo reforço nas regras do PCC.
As ordens do PCC têm sido um fator significativo nas dinâmicas de rivalidade entre torcidas organizadas, e sua influência se estende a outras partes do Brasil, onde a violência entre torcedores persiste, mas sem a mesma imposição centralizada como em São Paulo.
A complexa relação entre torcidas e facções criminosa reflete um cenário de violência e controle, que continua a impactar o ambiente do futebol e das comunidades envolvidas.