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Por que o Brasil ainda não se firmou como um exportador de formatos televisivos?

Imagem: Ricardo Carvalheiro / Netflix

Em um intervalo de menos de sete dias, a televisão brasileira dará início a adaptações locais de dois formatos originários do exterior. Na última terça-feira, a Globo apresentou Chef de Alto Nível, uma versão do americano Next Level Chef. No próximo domingo, a Record estreia Game dos 100, que teve sua origem na Bélgica, mas alcançou grande notoriedade quando foi produzido pela TV britânica.

Desde os anos 2000, os formatos internacionais dominaram a grade de programação das emissoras abertas e fechadas no Brasil. Enquanto a televisão brasileira é reconhecida globalmente por suas produções de ficção, essa mesma notoriedade não se reflete nos programas de não-ficção, que abrangem competições de música e culinária, formatos de confinamento ou sobrevivência, além de atrações voltadas para relacionamentos e comportamento.

São poucas as iniciativas locais que conseguem se destacar e conquistar o público, com algumas exceções notáveis, como Ilhados com a Sogra, da Netflix, que já garantiu sua terceira temporada, e Fábrica de Casamentos, criada pela produtora independente Formata e exibida por quatro temporadas no SBT e pela Discovery Home & Health.

A questão que se coloca é: a indústria audiovisual brasileira possui a criatividade e a capacidade necessárias para romper essa barreira e criar formatos originais que não apenas sejam relevantes no mercado interno, mas que também possam ser exportados? Para explorar essa dúvida, nossa coluna conversou com especialistas que atuam na área de formatos e detêm amplo conhecimento sobre o assunto.

Allan Lico, vice-presidente de conteúdo da Endemol Shine Brasil, explica que, quando uma emissora decide investir em um novo programa, o custo geralmente é elevado. Por isso, é mais seguro optar por projetos que já foram bem-sucedidos em outros países. Essa busca por segurança resulta na adaptação de tantos formatos internacionais no Brasil. Ele destaca que há pouco espaço para o risco e que a coragem para experimentar precisa ser incentivada. “No Brasil, há uma pressão para que cada programa seja um sucesso estrondoso, o que não permite margens para um desempenho considerado apenas aceitável. Na Holanda, a experimentação é mais comum, inclusive em formatos inusitados”, afirma.

Lico acredita que a regulamentação do streaming pode ser a chave para promover o desenvolvimento de mais formatos locais, ao exigir a produção de conteúdo original nacional. Isso abriria oportunidades para produtoras independentes e estimularia a diversidade de formatos. Ele enfatiza a importância de um tempo adequado para o desenvolvimento das ideias, citando a prática dos parceiros americanos que dedicam cerca de dois anos e meio para transformar uma ideia em um formato pronto para apresentação.

Elisa Chalfon, diretora de conteúdo de não-ficção da Netflix Brasil, ressalta a riqueza cultural e a diversidade de histórias brasileiras como um potencial para a criação de formatos originais de grande apelo. Ela observa que, embora o Brasil tenha excelentes profissionais, o desafio reside em contar essas narrativas de maneira autêntica e conectada com o público. “Precisamos continuar a desenvolver ideias inovadoras e apoiar talentos que possam criar versões autênticas das histórias que refletem a pluralidade do nosso país”, diz ela.

Daniela Busoli, CEO da Formata Produções e Conteúdo, comenta sobre a competitividade do mercado de TV e streaming e como a recessão econômica limita a disposição para assumir riscos. As emissoras tendem a se ater a formatos que já provaram seu sucesso internacional, mas ela enfatiza a importância de continuar a apresentar ideias originais. Busoli menciona que os formatos são cíclicos e que é fundamental estar atento às tendências globais para identificar oportunidades de inovação.

Rico Perez, diretor-geral de formatos de não-ficção, acredita que a barreira do idioma pode ser um obstáculo para a exportação de formatos brasileiros. O que torna nossos realities tão característicos pode causar estranhamento no exterior. Ele sugere que o Brasil deve se concentrar em desenvolver formatos com apelo mais universal, como Drag Me as a Queen e Ilhados com a Sogra, que conseguem transmitir uma perspectiva mais ampla.

Além disso, Perez defende a implementação de políticas de cash rebate, que oferecem incentivos financeiros para investimentos internacionais no Brasil, como uma forma de atrair produtores estrangeiros e mostrar o potencial do material local que, muitas vezes, não chega até eles.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade