Os jogos infantis não foram a única conexão com o passado apresentada em “Round 6”, série coreana que se tornou fenômeno no streaming e agora chega em sua terceira e última temporada. Nos intervalos das filmagens, parte do elenco se divertia jogando badminton, buscando fortalecer a conexão entre seus personagens e registrando os momentos com polaroids.
“As regras no set eram bastante rígidas”, lembra o ator e cantor Yim Si-wan, que entrou na segunda temporada como o Jogador 333 e desempenha papel importantíssimo na conclusão da série. “Telefones celulares eram expressamente proibidos”, continua. “Então eu fotografava meus companheiros com uma câmera polaroid.”
Essa guinada para um mundo mais analógico é, de certa forma, parte da premissa de “Round 6”. A trama, afinal, gira em torno de jogos infantil transformados em brincadeiras mortais, em que um grupo de jogadores em dificuldades financeiras extremas compete até a morte por um prêmio vultoso em dinheiro.
A atriz Kang Ae-shim, que interpreta a Jogadora 149, e experimenta um dos dilemas morais mais devastadores da série, acredita que o apelo global de “Round 6” está justamente em recuperar e distorcer brincadeiras infantis. “Os jogos que deveriam ser como contos de fadas são aqui sinônimo de morte”, diz. “Essa curiosidade alcançou todo o mundo.”
Ela é corroborada pelo colega Park Sung-hoon, que no papel da Jogadora 120 interpreta uma mulher trans em busca da soma para completar sua transição. “Martin Scorsese dizia que tudo que é mais pessoal também é o mais universal”, explica. “Os jogos, as emoções e até a comida na série são tipicamente coreanas, e justamente isso causa fascínio mundial.” Quando pergunto como foi o trabalho de construir a relação de seu personagem com Kang Ae-shim, ele se diverte: “Foram laços criados de forma orgânica com muita bebida e álcool”.
Já Lee Jung-jae, que assumiu o papel de protagonista da série como o Jogador 456, é ligeiro em dizer que não houve contribuição dos atores para a construção dos personagens, ressaltando que tudo veio da mente do diretor Hwang Dong-hyok. É pelo olhar de seu personagem, vencedor do jogo na primeira temporada e que retorna para acertar as contas com o criador da armadilha, que “Round 6” encontra sua humanidade.
Entretenimento como crítica à sociedade
“Nem consigo lembrar se equilibrar o drama humano com o espetáculo dos jogos foi um desafio”, intercede o próprio Hwang. Para ele, nivelar os dois vértices estava na forma de escolher e projetar os jogos inclusos na série, que precisavam ser visualmente interessantes, mas também com espaço para as interações e emoções dos personagens.
“Eu achei que a premissa básica de colocar brincadeiras infantis jogadas por adultos com sua vida em jogo já era inovadora e original”, continua, ressaltando que não criou “Round 6” mirando unicamente no entretenimento: “Há muito material para causar reflexão e discussão sobre críticas à sociedade atual”.
Um dos aspectos mais interessantes de “Round 6” em refletir o mundo real é a relação entre os personagens de Lee Jung-jae e Lee Byung-hun, que volta como o líder mascarado da arena de jogos, controlando os soldados armados que mantém os jogadores na linha e a temperatura entre os participantes, infiltrando-se entre eles para semear discórdia e desesperança.
Dois lados de uma mesma moeda
“O que os une são as circunstâncias em que eles foram obrigados a participar dos jogos”, explica Jung-jae, apontando que ambos, em momentos diferentes, falharam em prover para suas famílias em momentos críticos. “Para eles entrar no jogo foi o último recurso”, continua. “Eles estao ligados um ao outro mas olhando para direções opostas, como se fossem reflexos.”
Byung-hun corrobora o colega de elenco, enfatizando que sua primeira semelhança foi o fato de ambos os personagens um dia terem jogado e saído vencedores. “Eles terminaram trilhando caminhos totalmente opostos, essa derivação se deu por uma diferença muito pequena”, conclui. “No fim, 456 e o Líder se mostraram mais parecidos do que eles mesmos gostariam.”
Diretor de ‘Round 6’ explica como buscou reflexão além do entretenimento