Uma morte violenta deveria marcar o fim das atrocidades na vida de uma pessoa. Contudo, quando a vítima é mulher, ela frequentemente enfrenta novas violências, mesmo após sua partida. A série documental argentina “As Mil Mortes de Nora Dalmasso”, que se destacou entre os conteúdos mais assistidos da Netflix desde sua estreia, ilustra a triste realidade de que uma mulher não encontra descanso nem mesmo após ser assassinada.
Em três capítulos, a série investiga um dos casos mais notórios da criminalidade argentina: o assassinato da arquiteta Nora Dalmasso, ocorrido em 2006. Proveniente de uma família de classe média alta, Nora foi encontrada sem vida em sua residência, despida e com sinais de estrangulamento. Era casada com um médico renomado e mãe de dois filhos adolescentes. Seu caso ganhou destaque em revistas, jornais e programas de TV, que se dedicaram a especular sobre as razões de seu homicídio.
O sensacionalismo dominou a cobertura da imprensa, que não hesitou em retratar Nora de forma desrespeitosa, insinuando uma vida promíscua e dupla sem evidências concretas. A difamação e a calúnia emergiram como as principais narrativas em torno de sua morte. Embora o documentário se concentre em recontar a relação da mídia com o caso, falta uma análise mais profunda dos abusos cometidos, o que poderia enriquecer a discussão sobre a ética jornalística.
Entretanto, essa ausência de uma visão crítica não é o maior problema de “As Mil Mortes de Nora Dalmasso”. Para uma série cujo título sugere que a vítima sofreu múltiplas mortes após o homicídio — a reputação e a memória de Nora foram “destruídas” pela imprensa, por exemplo —, faltou um aspecto crucial: apresentar Nora Dalmasso de maneira justa ao público.
Quase tudo que sabemos sobre ela nos episódios provém da narrativa da mídia, sem uma tentativa significativa de construir uma imagem dela a partir dos relatos de familiares e amigos. Mesmo com a participação ativa dos filhos na produção, há pouco espaço para que eles compartilhem como realmente era Nora. Ao final da série, permanecemos sem uma compreensão verdadeira de quem foi Nora Dalmasso, o que, de certa forma, perpetua a sua morte, mesmo após o trágico feminicídio ocorrido em 2006.