A consultora imobiliária Rosana Souza Cerqueira enfrentou a dura realidade de dois acidentes vasculares cerebrais (AVCs) em um intervalo de menos de cinco meses. Essas experiências deixaram marcas profundas em sua vida, e a causa foi uma malformação cardíaca que ela desconhecia até então.
Atualmente com 50 anos, Rosana relembra com nitidez o dia 1º de fevereiro de 2011. Naquela época, aos 35 anos, ela trabalhava em uma instituição de ensino quando começou a sentir uma dor de cabeça intensa e um mal-estar generalizado. Enquanto ela não percebia, seus colegas notaram que ela apresentava dificuldades ao andar.
Decidida a buscar ajuda, Rosana se dirigiu a um hospital particular nas proximidades. Infelizmente, o atendimento foi insatisfatório; sua pressão arterial estava elevada e ela sentia dormência em um dos braços. Ela relatou essas queixas ao médico e aos enfermeiros, mas recebeu apenas dipirona. Após uma radiografia, o médico a tranquilizou, afirmando que não era nada sério.
Após informar sobre sua alergia a um anti-inflamatório que lhe foi prescrito, Rosana recebeu a orientação de que não haveria problema em tomá-lo. Assustada, decidiu buscar a assistência de seu então marido e se dirigiu a outro hospital. Os profissionais de lá perceberam que ela estava com dificuldades de fala, e após uma tomografia, o diagnóstico foi confirmado: AVC isquêmico. Rosana foi internada na UTI, onde permaneceu por uma semana.
Poucos meses depois, em 24 de maio de 2011, Rosana sofreu seu segundo AVC. Durante uma sessão de fisioterapia para tratar as sequelas do primeiro evento, a fisioterapeuta notou que algo estava errado. Ela foi rapidamente levada ao hospital, onde, horas depois, foi encontrada inconsciente em seu quarto e encaminhada novamente à UTI.
A recuperação de Rosana exigiu um longo período de acompanhamento com neurologistas, fisioterapeutas e fonoaudiólogos. Ela enfrentou dificuldades para andar e se comunicar, e sua condição foi agravada quando, em dezembro do mesmo ano, ela caiu de uma escada, rompendo os ligamentos do pé esquerdo.
As consequências foram tanto físicas quanto emocionais. Após os AVCs, Rosana desenvolveu ansiedade e depressão. “Eu sentia pânico sempre que tinha uma dor de cabeça, temendo que fosse um novo AVC”, compartilha.
“Vivo lidando com as sequelas até hoje. A depressão me acompanhou e sinto que minha memória não é mais a mesma. Eu aprendi piano durante toda a minha infância e adolescência, mas depois não consegui mais tocar. Tentei fazer aulas de violino com meus filhos, mas minha coordenação motora e memória já não eram as mesmas. Meu corpo mudou, engordei muito e meu casamento terminou um ano após tudo isso. Continuo a fazer acompanhamento anual com cardiologistas e neurologistas”, lamenta.
Na segunda internação, os médicos ficaram perplexos. Rosana era jovem, vegetariana, ativa e não tinha histórico de uso de medicamentos, álcool ou tabaco. A causa do AVC era um mistério.
Um exame chamado ecocardiograma transesofágico revelou a origem do problema: um forame oval patente (FOP). Essa malformação cardíaca ocorre quando há uma comunicação entre os átrios do coração que deveria ter se fechado após o nascimento, mas permanece aberta. Comum em até 20% da população, geralmente não apresenta sintomas, mas está associada a AVCs em jovens.
A neurologista vascular Letícia Rebello, representante da Sociedade Brasileira de AVC (SBAVC), explica que, embora haja uma relação entre as condições, ainda não se compreende completamente como uma pode desencadear a outra. “Na maioria dos casos de FOP, não há sintomas ou limitações. No entanto, essa correlação é mais evidente em jovens que sofreram AVC sem outros fatores de risco”, afirma a médica.
O AVC, também denominado derrame cerebral, resulta da interrupção do fluxo sanguíneo em uma área do cérebro. Essa interrupção pode ocorrer por diversos fatores, como acúmulos de placa de gordura ou formação de coágulos (AVC isquêmico), sangramentos devido à pressão alta ou até a ruptura de um aneurisma (AVC hemorrágico). Sintomas comuns incluem dores de cabeça severas, fraqueza ou dormência em partes do corpo, paralisia e perda súbita da capacidade de falar.
Embora não exista cura para o AVC, a prevenção é possível na maioria dos casos. Quando um AVC ocorre, é crucial buscar tratamentos para melhorar a condição e reabilitação para reduzir o risco de sequelas. Embora o AVC seja mais frequente em pessoas acima dos 50 anos, jovens também podem ser afetados. As principais causas incluem:
– Tabagismo e alimentação inadequada: Adoção de uma dieta equilibrada e prática regular de exercícios são essenciais.
– Hipertensão, colesterol alto e diabetes: O controle adequado dessas condições é fundamental para evitar complicações.
– Defeitos cardíacos ou vasculares: Alterações detectadas em consultas de rotina devem ser acompanhadas, podendo exigir medicação como anticoagulantes.
– Uso de drogas ilícitas: Buscar ajuda em centros especializados é importante para desintoxicação e melhoria da qualidade de vida.
– Aumento da coagulação sanguínea: Doenças como lúpus, anemia falciforme ou trombofilias devem ser investigadas.
Com o diagnóstico confirmado, os médicos indicaram o fechamento do forame oval patente. Rosana optou por não se submeter a uma cirurgia aberta e foi encaminhada a um especialista em hemodinâmica, que realizou o procedimento via cateterismo femoral, feito pela virilha.
Durante a intervenção, Rosana permaneceu consciente. “Fui instruída a relatar qualquer dor ou sensação de calor ou frio durante o uso de contrastes. Minha perna ficou imobilizada por dois dias e não precisei de pontos”, ela conta. Após poucos dias, recebeu alta e seguiu com acompanhamento regular.
Atualmente, Rosana toma anticoagulantes diariamente e, como medida preventiva, um medicamento para controle da pressão arterial. “Nunca mais fui a mesma. Minha imunidade caiu; antes, eu não pegava nem gripe”, observa.
Letícia enfatiza a importância de reconhecer os sinais de um AVC e buscar atendimento adequado. “Nem todos os hospitais estão preparados para diagnosticar AVCs em jovens. Um diagnóstico rápido é crucial”, alerta. Ela também destaca a necessidade de estar atento a sintomas como dores de cabeça intensas, dormência em membros e alterações na fala ou equilíbrio. “Muitas pessoas acreditam que AVC é algo restrito a idosos, mas isso não é verdade”, conclui a médica.
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