Na versão original de “Vale Tudo”, que foi ao ar em 1988, a narrativa do casal Laís e Cecília foi encurtada para levantar uma discussão social: em caso de falecimento, como se dá a divisão de bens em uma relação homoafetiva? Em 2025, Cecília (Maeve Jinkings) não irá falecer, mas ficará em coma por vários episódios após um acidente. Isso significa que ela e sua esposa, Laís (Lorena Lima), que já não tiveram muita relevância nos primeiros meses da novela, serão ainda mais relegadas ao segundo plano.
A condição de Cecília criará uma oportunidade para que Marco Aurélio (Alexandre Nero) tente usurpar a guarda de Sarita, a menina que o casal está em processo de adoção. Embora essa atitude do executivo possa gerar conflitos e movimentar a narrativa, ela se mostra pouco realista e não aborda de forma adequada os desafios enfrentados por casais homoafetivos que desejam adotar.
Para uma produção que se propõe a discutir temas relevantes, a forma como a história de Cecília e Laís é conduzida revela-se um erro. Além de não promover um debate sobre os obstáculos que casais homossexuais encontram ao se candidatar à adoção, “Vale Tudo” ainda retira uma das raras personagens da comunidade LGBTQIAPN+ da trama.
A ausência de representatividade no atual folhetim das nove é evidente. Apesar da presença de vários personagens da geração Z, que tende a ter uma sexualidade mais fluida, até o momento, nenhum dos jovens de “Vale Tudo” se distancia da heterossexualidade. Ao compararmos com produções recentes na mesma faixa horária e até com novelas exibidas às 19h, percebemos que a presença de personagens LGBTQIAPN+ era mais significativa em narrativas como “Renascer”, “Terra e Paixão” e a recém-finalizada “Volta Por Cima”.
Se “Vale Tudo” realmente almeja ser um reflexo do Brasil contemporâneo, é essencial que amplie sua representação da diversidade sexual. A novela ainda tem quatro meses pela frente, e há tempo para corrigir esse rumo.