A Justiça de São Paulo anulou a sentença de primeira instância que beneficiava a família de Abilio Diniz (1936-2024) em processo contra a galeria Pintura Brasileira. A empresa é acusada de comercializar dois quadros falsificados do artista Alfredo Volpi ao empresário.
O que aconteceu
A decisão também suspendeu a conclusão do perito nomeado pelo juiz, que havia determinado a falsificação das obras. Segundo o Tribunal de Justiça, a conclusão de primeira instância não considerou parecer da filha do artista, Eugênia Volpi, e apresentava uma série de “vícios” e “falhas”.
O tribunal entendeu que as provas reunidas não foram suficientes para comprovar a autenticidade ou não dos quadros. Diante disso, a Justiça solicitou uma nova perícia técnica das pinturas.
Desprezar a produção nos últimos anos de vida de um artista significa excluir uma fase inteira de sua obra –jogar no lixo uma rica e prolífica etapa da criação de um artista.Marcelo Barbosa, representante da galeria
Os dois lados travam uma batalha judicial desde 2017. De um lado, representantes do empresário, que morreu em 2024, contestam categoricamente a autenticidade das peças —baseada em parecer do Instituto Alfredo Volpi de Arte Moderna e nos laudos de um colecionador e um estudioso do pintor.
De outro, a galeria Pintura Brasileira reafirma a procedência das obras alegando que elas foram atestadas por uma das filhas do artista, Eugenia Volpi. Segundo a galeria, os laudos apresentados pela acusação “contém falhas e informações equivocadas.”
O que diz a família de Abilio Diniz
Abílio comprou as obras “Bandeirinhas com Mastro” e “Bandeirinhas” por R$ 69 mil, em 2007. Anos depois, em 2012, ele transferiu a propriedade das peças para a mulher, Geyze Marchesi.
O casal alega que um amigo, ao folhear o catálogo raisoneé —referência em obras de arte—, identificou que a numeração das peças compradas não coincidia com as do catálogo. Na sequência, Geyze teria solicitado a opinião do galerista Peter Cohen, da Dan Galeria, e que ele teria dito que os “quadros lhe pareciam estranhos”.
Segundo a defesa, foi neste momento que ela decidiu solicitar ao Instituto Alfredo Volpi os certificados de autenticidade. O instituto, no entanto, concluiu que as “obras não eram autênticas” e, por isso, negou a emissão dos documentos.
O processo foi esgotado. Ela [filha de Alfredo Volpi] autenticou uma obra que é falsa. A Justiça já decidiu que é falsa. Mesmo ela sendo filha, isso muda até um pouco como a gente olha para a obra, porque ser filha não basta. É uma falsificação e a defesa está focada na recuperação.Luiz Otávio Pacífico, advogado, em conversa com Splash em 2023
O que diz a galeria Pintura Brasileira
A galeria garante a autenticidade das obras de arte. À reportagem, em 2023, o marchandre afirmou que as peças foram comercializadas com documentos assinados por uma das filhas do autor.
Ele contesta o laudo feito pelo perito João Carlos Lourenço, que teve os efeitos suspensos diante da última decisão. “Sabemos também que no século 21 a única forma de comprovar se, de fato, uma obra de arte é autêntica ou não é através de uma perícia científica. Coisa que até então não havia sido realizada”, alega.
Marcelo ainda ressalta que a defesa da galeria foi a única que “providenciou uma perícia grafoscópica” para analisar a assinatura. No documento, o perito Vergilio Silvano Freixo conclui que as assinaturas “têm as características do punho escritor do artista” e, portanto, elas são “autênticas”.
A galeria também aponta falhas no relatório do Instituto Alfredo Volpi e do perito judicial. “O perito nomeado pelo juiz, o senhor João Carlos Lourenço, não possui qualificação suficiente para determinar objetivamente e nos padrões atuais se uma obra de arte é autêntica ou não.”