** *Este artigo é de autoria do professor de dinâmica climática Manoj Josh e da estudante Maria Di Paolo, ambos da University of East Anglia, juntamente com o professor Andrew Rushby, da University of London, todos no Reino Unido, e foi publicado na plataforma The Conversation Brasil.
Recentemente, um grupo de pesquisadores anunciou a detecção de um gás denominado sulfeto de dimetila (DMS) na atmosfera do planeta K2-18b, que orbita uma estrela distante. As alegações dos cientistas da Universidade de Cambridge são potencialmente intrigantes, pois na Terra, esse composto é gerado por bactérias marinhas. Sua presença poderia ser um indício de vida em K2-18b, mas é fundamental não apressar conclusões.
K2-18b possui um raio 2,6 vezes maior que o da Terra e uma massa quase nove vezes superior, orbitando uma estrela localizada a 124 anos-luz de distância. Embora haja especulações sobre a possibilidade de um vasto oceano de água líquida sob uma atmosfera rica em hidrogênio, ainda não se pode afirmar quais características esse planeta possui, já que existem diferentes hipóteses sobre suas propriedades e suas implicações para a detecção de DMS.
As afirmações sobre a possível existência de vida em outros planetas não são recentes. Na década de 1970, um cientista da missão Viking, que explorou Marte, indicou que seus experimentos sugeriam a presença de microrganismos no solo marciano; no entanto, essas conclusões foram amplamente contestadas por outros especialistas. Em 1996, uma equipe anunciou ter encontrado estruturas microscópicas semelhantes a bactérias em um meteorito marciano, mas investigações subsequentes levantaram sérias dúvidas sobre essa descoberta.
Desde o início dos anos 2000, várias alegações sobre a detecção de metano na atmosfera de Marte foram feitas, tanto por meio de observações de satélites quanto de veículos robóticos. O metano pode ser gerado por diferentes processos, incluindo a atividade de microrganismos, considerados fontes “bióticas”, enquanto processos geológicos como vulcanismo e fontes hidrotermais são classificados como “abióticos”.
Além de Marte, outras alegações de vida extraterrestre foram feitas, como a detecção de baixos níveis de fosfina na atmosfera de Vênus em 2020, que gerou especulações sobre a presença de vida nas nuvens do planeta. Contudo, a detecção de fosfina enfrentou contestação de outros cientistas.
Os sinais que sugerem a existência de vida em outros mundos são conhecidos como “bioassinaturas”, definidas como objetos ou substâncias cuja origem requer um agente biológico. Para que uma detecção seja considerada válida, é necessário considerar todas as possíveis explicações abióticas.
Além disso, a coleta e interpretação de dados sobre atmosferas planetárias apresentam desafios significativos, especialmente quando se trata de exoplanetas, onde os dados disponíveis são limitados. Os cientistas utilizam espectros, que são as “impressões digitais” das moléculas na atmosfera, para determinar quais substâncias químicas estão presentes. Esse processo é complexo e exige trabalho meticuloso, frequentemente assistido por computadores.
Após a coleta de dados, os astrônomos avaliam a probabilidade de uma assinatura química ser “real”. No caso da suposta detecção de DMS em K2-18b, os autores sugerem que a probabilidade de que essa característica no espectro atmosférico seja explicada pelo DMS é superior a 99,9%. Isso implica que há uma chance de cerca de 1 em 1.500 de que o DMS não esteja realmente presente.
Embora a equipe responsável pela descoberta defenda a ideia de que K2-18b é um mundo oceânico, outra equipe sugere que ele pode ter um oceano de magma ou ser um planeta “anão gasoso”, semelhante a Netuno, o que tornaria a vida menos viável. Isso levanta a questão sobre a possibilidade de a formação do DMS ocorrer por processos abióticos.
A exigência de rigor científico deve ser a mesma para alegações de vida extraterrestre e para outros campos da ciência. Mesmo que os padrões de coleta e processamento de dados sejam atendidos, as afirmações sobre a vida no passado são frequentemente recebidas com ceticismo. A frase “alegações extraordinárias exigem evidências extraordinárias”, atribuída ao cientista e divulgador Carl Sagan, resume bem essa postura.
Embora não existam processos conhecidos na Terra que produzam DMS sem a presença de vida, esse composto foi detectado em um cometa chamado 67/P, estudado pela espaçonave Rosetta da Agência Espacial Europeia, além de ter sido encontrado até mesmo no espaço interestelar, sugerindo que pode ser gerado por mecanismos não biológicos.
Diante das incertezas sobre K2-18b, não é possível afirmar com certeza se a presença do DMS é um sinal de processos não biológicos ainda não compreendidos. A descoberta do DMS em K2-18b é fascinante e reflete avanços significativos em áreas como astronomia e astrobiologia, mas suas implicações exigem uma análise cuidadosa e a consideração de explicações alternativas antes de se chegar a conclusões sobre a vida extraterrestre.
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