Após o surgimento das primeiras informações sobre a Operação Floresta Devastada, conduzida pela Polícia Civil de São Paulo, o banqueiro Noberto Nogueira Pinheiro, proprietário do Banco Pine, apressou-se em negar qualquer vínculo com seu irmão, o também banqueiro Nelson Nogueira Pinheiro, que é o foco principal da investigação destinada a rastrear pelo menos R$ 100 milhões desaparecidos do FPB Bank, localizado no Panamá.
No entanto, documentos obtidos pela coluna indicam que Noberto manteve laços financeiros com o banco do irmão até que o FPB Bank fosse alvo de uma intervenção governamental no Panamá, motivada por investigações da Lava Jato que sugeriram que a instituição atuava como facilitadora na criação de empresas offshore em paraísos fiscais.
O envolvimento financeiro significativo de Noberto com o FPB Bank é destacado em um momento crítico, quando a Superintendência de Bancos do Panamá, que assumiu a gestão do banco de Nelson Pinheiro, reivindicava uma dívida que Noberto possuía. O pedido de execução de mais de R$ 42 milhões foi protocolado no Tribunal de Justiça de São Paulo em 2020, documentando que duas empresas de Noberto, Zadar Management S.A. e Duquesa Enterprises S.A., haviam contraído empréstimos do banco panamenho.
Em 2014, a Zadar obteve um empréstimo de US$ 3,56 milhões, a uma taxa de juros de 3% ao ano, com vencimento em 2015. Contudo, na data do pagamento, um novo contrato foi firmado, alterando apenas o prazo para 2016. Essa mesma prática foi repetida em outras duas ocasiões, com o último contrato assinado em dezembro de 2016, estendendo o prazo para 10 de março de 2017. Neste período, as investigações da Lava Jato já estavam em evidência, e o governo panamenho havia tomado o controle do banco de Nelson Pinheiro em 13 de fevereiro de 2017, antes do vencimento do empréstimo.
O segundo empréstimo, concedido à Duquesa Enterprises (atualmente conhecida como Persia Holdings), totalizou US$ 5,65 milhões, assinado em 2009, com uma taxa de juros de 8% ao ano e um cronograma de pagamento até 2020. Em 2015, um aditamento foi realizado, reduzindo o montante devido para US$ 3,16 milhões e prorrogando o prazo até 2021.
O pedido de execução na Justiça brasileira era de US$ 10 milhões, correspondendo a aproximadamente R$ 42.521.445,52 na época. Contudo, antes que qualquer decisão judicial fosse proferida, os representantes do governo panamenho optaram por desistir da ação, alegando ter alcançado um acordo extrajudicial com Noberto. Essa ação foi proposta em 3 de fevereiro de 2020, e o pedido de desistência foi feito em 4 de março do mesmo ano.
Em comunicado à imprensa e ao mercado, o Banco Pine afirmou que, desde 2005, quando Nelson Pinheiro deixou sua posição como sócio minoritário da instituição, não havia mais vínculos com ele ou suas atividades. O comunicado também mencionava que a menção de Noberto na operação se dava por sua participação em uma holding familiar criada para planejamento sucessório, na qual Nelson é um dos herdeiros.
A Operação Floresta Devastada, deflagrada no final de abril, busca investigar o desaparecimento de pelo menos R$ 100 milhões pertencentes a clientes do FPB Bank. Em 2016, a Lava Jato já havia identificado o FPB Bank como um facilitador da criação de empresas offshore em paraísos fiscais, atraindo principalmente clientes brasileiros que desejavam evitar a burocracia envolvida na comprovação de origem de recursos para transferências internacionais.
À medida que as investigações avançavam, clientes do banco começaram a reportar dificuldades em retirar seus fundos. Embora as autoridades estimem que o montante desaparecido seja de R$ 100 milhões, a quantia real pode ser ainda maior, dado que muitos clientes optaram por esse tipo de operação para escapar da vigilância dos órgãos reguladores. Suspeita-se que os valores tenham sido transferidos para uma offshore em Belize.
No contexto da operação, a Justiça autorizou o sequestro de bens dos investigados até um limite de R$ 500 milhões, visando Nelson (proprietário do FPB Bank), Noberto (do Banco Pine) e seu irmão Jaime, que também faz parte da família de banqueiros. Além do bloqueio de bens de 16 indivíduos, as contas de 19 empresas foram restringidas, incluindo o FPB Bank Inc, Brickell Participações S/A e Ducoco Produtos Alimentícios SA, a última com dívidas que superam R$ 667 milhões e em recuperação judicial.
Os irmãos Nelson, Noberto e Jaime Nogueira Pinheiro herdaram o antigo banco BMC, vendido ao Bradesco em 2007, operação que rendeu R$ 800 milhões à família. Apesar disso, a família continuou a atuar no mercado financeiro, incluindo empresas que se tornaram o centro do suposto esquema criminoso. Nelson e Noberto fundaram o Banco Pine em 1997, mas Nelson deixou a instituição em 2005. O Pine, classificado como um banco de médio porte, realizou seu IPO em 2007.
Você já conferiu todas as atualizações e reportagens da coluna hoje? Acesse a coluna do Metrópoles.