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Sinais de cautela com a IA começam a pressionar ações de tecnologia e favorecem Treasuries nos EUA

•Imagem gerada por IA

Os mercados financeiros dos Estados Unidos ainda parecem estáveis na superfície, com as ações próximas de máximas históricas e os títulos do governo negociados em níveis semelhantes aos observados nos últimos dois meses. Por trás desse cenário, porém, investidores demonstram crescente preocupação com a sustentabilidade financeira do boom da inteligência artificial (IA), movimento que pode afetar tanto o mercado acionário quanto a base do crescimento econômico americano.

A apreensão mais recente não está relacionada aos riscos existenciais da tecnologia, tema que dominou o debate no mês passado, mas à possibilidade de a IA se transformar em um enorme passivo financeiro. Caso o entusiasmo em torno do setor perca força, a desvalorização poderá atingir empresas de tecnologia, credores e investidores que financiaram a expansão da infraestrutura necessária para o desenvolvimento da tecnologia.

Desempenho do S&P 500 revela divergência incomum

Uma das evidências de que os investidores estão mais cautelosos surgiu em 22 de outubro, quando duas formas de medir o desempenho do índice S&P 500 apresentaram resultados opostos. O indicador tradicional, ponderado pelo valor de mercado de cada empresa, recuou 1,2%. Já a versão com peso igual para todas as ações avançou 0,5%.

O S&P 500 ponderado pelo valor de mercado dá influência desproporcional às maiores companhias, especialmente às gigantes de tecnologia avaliadas em trilhões de dólares. A alternativa, que atribui o mesmo peso a cada empresa, reduz a influência das Big Techs e oferece uma visão mais equilibrada do desempenho entre os diferentes setores.

Segundo James Reilly, economista sênior de mercados da Capital Economics, uma diferença dessa magnitude entre os dois índices havia ocorrido apenas duas vezes desde 1995: em 14 de abril de 1999 e em 30 de março de 2000. Os dois episódios ocorreram em um período de forte valorização e posterior instabilidade das ações de tecnologia.

A movimentação dos títulos do Tesouro americano no mesmo dia reforçou a percepção de cautela. O rendimento dos Treasuries de dez anos caiu abaixo de 5% e registrou a maior queda diária desde 10 de março de 2023, data da implosão do Silicon Valley Bank. Na prática, os investidores retiraram recursos de ações de tecnologia e direcionaram parte do dinheiro para os títulos do governo e para empresas de outros setores.

Inflação, dívida e gastos com IA pressionam o mercado

Os títulos americanos vinham enfrentando meses de pressão, com os rendimentos subindo para máximas de várias décadas. Três fatores estavam no centro desse movimento: a guerra no Irã, que provocou uma retomada da inflação ao reduzir o fornecimento mundial de petróleo e combustível; o aumento da dívida dos Estados Unidos, que chegou a US$ 40 trilhões; e a expansão do déficit orçamentário, que alcançou US$ 2 trilhões no último ano fiscal.

Com a inflação elevada, os investidores passaram a exigir rendimentos maiores para compensar a perda de poder de compra de seus investimentos. Ao mesmo tempo, o governo americano continua precisando emitir grandes volumes de dívida para financiar suas contas. Políticos de diferentes correntes defendem medidas populistas, como cortes de impostos e aumento de gastos, sem oferecer sinais de que uma política de responsabilidade fiscal ganhará força em Washington no curto prazo.

Esse quadro tende a manter o Tesouro ativo no mercado de crédito, inundando os investidores com novos títulos. A dívida pública, portanto, disputa espaço com outras emissões, inclusive as realizadas por empresas de tecnologia que buscam financiar sua expansão.

Os investimentos necessários para sustentar a infraestrutura da IA também são expressivos. A construção e a operação dos sistemas exigem cerca de US$ 1 trilhão por ano, valor que continua crescendo. Para obter esses recursos, empresas de tecnologia vêm captando volumes elevados por meio da emissão de títulos, aumentando a concorrência pela demanda que também poderia ser direcionada aos Treasuries.

Apesar disso, os títulos do governo americano, que vinham sendo evitados pelos investidores, voltaram a atrair recursos. A mudança ocorreu mesmo sem uma melhora fundamental nos fatores que pressionavam o mercado. A guerra no Irã, a inflação e as preocupações fiscais podem até piorar: os preços do petróleo estão nos maiores níveis em quatro anos, enquanto os combustíveis dispararam em algumas regiões dos Estados Unidos. O presidente Donald Trump também sinalizou que a guerra, considerada dispendiosa, poderá ganhar novo impulso após as eleições de meio de mandato.

Empresas de IA levantam dúvidas sobre a sustentabilidade do setor

O principal elemento novo no cenário é a crescente preocupação com a capacidade financeira das empresas ligadas à IA. Quando os investidores ficam mais nervosos, tendem a buscar ativos considerados mais seguros, como o dólar americano e os títulos do Tesouro. Esse movimento pode indicar uma mudança de percepção sobre o risco associado ao setor de tecnologia.

Um possível ponto de inflexão envolve a CoreWeave, empresa conhecida como neocloud, que aluga capacidade computacional para companhias de IA. A empresa utiliza intensamente dívida para financiar suas operações, e seus custos de empréstimo chegaram a 15% no início deste mês, à medida que os investidores passaram a questionar suas perspectivas financeiras.

Essa taxa supera com folga o retorno obtido pela empresa sobre seus investimentos. Em termos práticos, a CoreWeave estaria perdendo dinheiro em suas operações e poderia enfrentar dificuldades para honrar suas dívidas. O caso pode ser isolado, mas também pode revelar problemas mais amplos no modelo de financiamento que sustenta a expansão da IA.

Uma reportagem do Wall Street Journal sobre o rascunho do pedido de abertura de capital da Anthropic acrescentou pressão ao debate. O documento mostrou um prejuízo de quase US$ 81 bilhões no primeiro semestre de 2026. Caso a empresa abra capital neste ano e mantenha esse ritmo, poderá superar o recorde de maior prejuízo anual já registrado por uma companhia de capital aberto.

A Meta também divulgou um dado preocupante: a empresa consumiu US$ 2 bilhões a mais em caixa do que gerou no terceiro trimestre. As ações da companhia caíram 7% na quinta-feira.

Investidores reavaliam o financiamento circular da tecnologia

Os resultados ampliaram as dúvidas sobre o sistema de financiamento circular que há tempos é questionado por investidores. Empresas de tecnologia investem umas nas outras, compram serviços entre si e recorrem ao mercado de dívida para financiar projetos de expansão. O receio é que esse arranjo forme uma estrutura altamente alavancada, semelhante a um castelo de cartas, vulnerável à queda de uma de suas principais peças.

“O que estamos vendo é uma volatilidade elevada em torno de algo que parece, se sente e cheira como uma bolha”, afirmou Joe Brusuelas, economista-chefe da RSM US.

A Nasdaq já acumula queda de 6% em duas semanas. Ainda assim, o movimento não é inédito. Em temporadas anteriores de resultados, investidores também demonstraram preocupação com os gastos das empresas de tecnologia em IA. Em seguida, quando algumas companhias apresentaram sinais de demanda sustentada, o dinheiro voltou para as ações do setor.

Não está claro, portanto, quanto tempo durará o atual esfriamento. Mesmo uma eventual explosão da bolha da IA não necessariamente levaria a economia americana a uma recessão, segundo Reilly. Cada bolha financeira tem características próprias, e os efeitos sobre a atividade econômica podem variar.

Nos últimos anos, economistas passaram a descrever a economia dos Estados Unidos como estando em uma “recessão rotativa”, situação em que alguns setores prosperam enquanto outros enfrentam dificuldades. O equilíbrio entre essas áreas teria ajudado a impedir uma contração generalizada. O mesmo pode ocorrer agora, embora também seja possível que o resultado seja diferente.

Por enquanto, o mercado registrou uma combinação incomum: os rendimentos dos títulos despencaram, os investidores buscaram segurança e o S&P 500 apresentou uma divergência entre seus dois principais métodos de ponderação que só ocorreu três vezes desde 1995, contando o episódio atual. O movimento pode representar o início de uma mudança mais ampla na avaliação da IA ou apenas mais um obstáculo temporário no caminho do setor.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade