Os Estados Unidos atravessam uma fase de transformação econômica marcada por um avanço tecnológico sem precedentes, especialmente na área de inteligência artificial, que tem provocado um aumento expressivo nos investimentos e no valor de mercado. Este fenômeno, que supera inclusive o boom das telecomunicações e projetos históricos de infraestrutura como ferrovias e rodovias, tem impulsionado ganhos significativos no mercado de ações, contribuindo para a elevação da riqueza das famílias americanas e sustentando níveis de consumo relativamente estáveis. Contudo, essa expansão de riqueza tem se concentrado majoritariamente na parcela mais rica da população, acentuando uma crescente desigualdade econômica.
A concentração de ganhos entre os 1% mais ricos é evidenciada pelos dados do Federal Reserve, que indicam que, desde o final do mandato do ex-presidente Joe Biden até meados de 2026, essa fatia da população obteve uma parcela maior da riqueza nacional, enquanto a participação do top 1% no total da riqueza diminuiu após o segundo mandato de Donald Trump. Apesar disso, a riqueza total das famílias aumentou cerca de 16,5% no mesmo período, atingindo aproximadamente US$ 26 trilhões, com metade desse crescimento sendo direcionada às camadas menos favorecidas, o que representa um avanço de cerca de 10% nesse segmento.
Este fenômeno de polarização econômica levanta questionamentos entre economistas sobre a sustentabilidade do crescimento se a desigualdade persistir. Enquanto a renda e o patrimônio das famílias mais ricas continuam a subir de forma robusta, os gastos das camadas mais pobres, embora em crescimento absoluto, enfrentam dificuldades para acompanhar a inflação, que mantém os preços elevados e prejudica o poder de compra da maioria dos consumidores. Estudos do Federal Reserve de Richmond e de Nova York indicam que, apesar do aumento no volume de gastos, especialmente na base da distribuição de renda, os gastos ajustados pela inflação permanecem semelhantes aos níveis pré-pandemia, evidenciando o impacto do aumento de preços.
A inflação, que se mantém elevada, tem sido um fator preocupante na opinião pública, influenciando o cenário político à medida que as famílias sentem o peso dos custos mais altos em itens essenciais, como gasolina, carne moída e habitação. Apesar de os salários por hora terem crescido a um ritmo semelhante ao índice de preços ao consumidor, o aumento dos preços de bens essenciais, aliado à elevação das taxas de hipoteca devido ao aumento dos rendimentos dos títulos, tem dificultado o acesso à moradia e afetado a formação de famílias e o acúmulo de patrimônio ao longo do tempo.
Na campanha presidencial de 2024, o ex-presidente Donald Trump prometeu combater a inflação, prometendo não apenas controlá-la, mas reduzir os preços desde o início de seu novo mandato. No entanto, a recuperação dos preços desde os primeiros meses de seu governo, impulsionada por tarifas de importação, custos energéticos relacionados à guerra com o Irã e o impacto do boom da inteligência artificial, demonstra a complexidade de uma política de controle inflacionário em um contexto de crescimento econômico. Os dados indicam que, embora o crescimento do salário por hora e o índice de preços ao consumidor estejam alinhados, a disparidade de preços de bens essenciais como gasolina e alimentos continua a pressionar o orçamento das famílias.
Especialistas destacam que a acessibilidade à moradia, especialmente no mercado imobiliário, permanece uma preocupação central. Os preços de imóveis, influenciados por fatores como o aumento das taxas de hipoteca, que subiram mais de um ponto percentual nos últimos doze meses, dificultam a formação de novas famílias e o acúmulo de riqueza de longo prazo. Assim, o cenário econômico atual revela uma combinação de crescimento de riqueza concentrada, aumento de custos para a população mais vulnerável e desafios persistentes na gestão da inflação, fatores que moldam o debate político e econômico no país.