Uma investigação conduzida pelo Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) identificou a presença de cocaína e de seu principal metabólito, a benzoilecgonina, em cinco rios que percorrem a cidade do Rio de Janeiro e a Região Metropolitana. A pesquisa, que envolveu análises de amostras de água ao longo de um ano, revelou níveis de contaminação superiores aos detectados em estudos realizados em países como Bélgica, Espanha e Estados Unidos, além de apontar efeitos tóxicos dessas substâncias sobre organismos aquáticos.
A investigação abrangeu os rios Irajá e Carioca, além dos canais do Cunha e do Mangue, todos na capital, bem como o Rio Meriti, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Todos esses corpos d’água deságuam na Baía de Guanabara, uma das áreas mais sensíveis do ponto de vista ambiental da região. Os estudos foram realizados em parceria com diversas instituições de ensino e pesquisa, incluindo a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), o Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde (INCQS/Fiocruz), a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). O financiamento veio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).
Os dados foram publicados na revista científica internacional Aquatic Toxicology, e a pesquisa integrou a tese de doutorado de Gabriel de Farias Araujo, orientada pelo pesquisador Enrico Saggioro. O estudo foi realizado com coletas mensais de água em cada um dos cinco rios, totalizando 60 amostras entre julho de 2022 e junho de 2023. Apenas uma dessas amostras não apresentou a presença de cocaína ou de seu metabólito, que foi detectado em todas as demais, indicando uma contaminação generalizada.
A análise revelou que a concentração de benzoilecgonina foi maior que a de cocaína na maioria das amostras, o que sugere que a contaminação decorre principalmente do descarte de esgotos contendo dejetos de usuários de drogas. O pico de contaminação ocorreu durante a estação chuvosa, entre outubro e março, com destaque para o mês de janeiro, período de férias e festas, o que reforça a correlação entre eventos sociais e aumento na presença de drogas ilícitas no ambiente aquático. Em apenas uma amostra, a concentração de cocaína foi quatro vezes maior que a do metabólito, indicando possível descarte direto da droga no ambiente.
Para avaliar os impactos ambientais, os pesquisadores realizaram ensaios laboratoriais com embriões de zebrafish, um organismo padrão em estudos de ecotoxicologia. Os resultados demonstraram que as concentrações detectadas nos rios causaram aumento na mortalidade, deformidades, além de alterações cardiovasculares e neurológicas nos peixes. Curiosamente, o metabólito apresentou efeitos ainda mais nocivos que a cocaína, mesmo em concentrações 13% inferiores às encontradas na água, indicando um potencial tóxico elevado.
Diante desses resultados, os autores destacam a necessidade de incluir a cocaína e seus metabólitos em programas de monitoramento ambiental e avaliações de risco ecológico, sobretudo em regiões urbanizadas e com alta circulação de drogas. Como continuidade da pesquisa, os cientistas ampliaram o estudo para 13 rios do Rio de Janeiro, com novas coletas realizadas entre dezembro de 2023 e novembro de 2024. Os resultados dessas análises estão em fase de processamento, com previsão de conclusão para o primeiro semestre de 2027.
Por fim, durante o período eleitoral de julho a outubro de 2023, as informações divulgadas pela Agência Fiocruz de Notícias seguiram orientações específicas da Advocacia-Geral da União (AGU) e da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), permitindo a circulação de conteúdo meramente informativo e de serviço à população.