A recente proibição das apostas de quota fixa, incluindo apostas esportivas e jogos online, deve proporcionar algum alívio no orçamento das famílias e potencialmente beneficiar empresas listadas na B3, especialmente no setor de varejo. No entanto, os efeitos sobre os lucros das companhias ainda permanecem incertos, sobretudo devido às incertezas jurídicas e ao cenário econômico desafiador, marcado por juros elevados e alto endividamento das famílias.
A medida provisória publicada pelo Governo Federal nesta sexta-feira (25) impede a oferta de apostas de quota fixa por um período de até 120 dias, enquanto o Congresso analisa a sua validade. Apesar de possíveis efeitos positivos de curto prazo, especialistas alertam que a mudança abrupta na regulamentação gera insegurança para investidores e pode impactar negativamente o apetite do mercado por investimentos de longo prazo.
Segundo analistas ouvidos pelo CNN Money, a expectativa é que, inicialmente, bancos e redes de supermercados sejam os principais beneficiados, com o efeito se estendendo gradualmente para farmácias e, de forma mais lenta, para setores de vestuário e eletrodomésticos. Beto Saadia, economista-chefe da Nomus Investimentos, destaca que empresas como Assaí e Carrefour no segmento de alimentos, além de Casas Bahia, Renner e C&A, podem experimentar algum impulso na receita. Contudo, Saadia ressalta que a proibição não resolve o problema do elevado endividamento das famílias, que continua sendo o principal fator de pressão sobre o consumo, impulsionado pelos juros altos, que dificultam o pagamento de dívidas e reduzem a capacidade de gasto.
Murilo Viana, especialista em contas públicas, também acredita que há potencial para melhora no consumo, especialmente entre famílias de menor renda, uma vez que o governo aprovou o reajuste do programa Bolsa Família. Contudo, ele alerta que os limites impostos pelos juros ainda restringem o crescimento econômico, já que o endividamento de famílias e empresas permanece elevado e sinais de desaceleração econômica são evidentes.
No setor de varejo, especialmente no segmento de supermercados, a expectativa é de impacto mais direto. Flávio Conde, head de renda variável na Levante Investimentos, afirma que a proibição deve beneficiar principalmente redes como Assaí, que atuam no atacarejo, ao reduzir a competição com apostas online que, segundo ele, desviam recursos do consumo. Durante a temporada de resultados do segundo trimestre de 2026, representantes de varejistas manifestaram preocupação com o efeito das apostas online nas vendas. Rafael Sachete, diretor financeiro do Assaí, destacou que juros, medicamentos emagrecedores e apostas continuam pressionando os resultados da rede. Já Frederico Trajano, CEO do Magazine Luiza, afirmou que parte dos recursos retidos nas plataformas de apostas deixa de circular na economia, além de classificar o avanço das apostas como um problema que impacta tanto a economia quanto a saúde pública.
Antes da proibição, o BTG Pactual estimou que o mercado regulado de apostas gerou R$ 36,9 bilhões em receita bruta de jogos em 2025, uma métrica conhecida como GGR, que representa a diferença entre o valor apostado e os prêmios pagos. Mesmo que uma parte significativa desse montante seja redirecionada para compras ou pagamento de dívidas, o impacto no consumo pode ser relevante, especialmente para consumidores de menor renda. No entanto, há o risco de migração dessas apostas para o mercado clandestino, o que pode dificultar a estimativa do impacto real na economia.
De modo geral, os analistas concordam que, embora a proibição possa gerar efeitos positivos de curto prazo ao reduzir a dispersão de recursos, ela também traz incertezas que podem afetar a confiança do mercado e o desempenho de setores ligados ao consumo. A expectativa é de que o cenário econômico continue sendo influenciado por fatores como juros altos, endividamento elevado e desaceleração econômica, que permanecem como obstáculos significativos para uma recuperação mais robusta do consumo.