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Fiocruz amplia projeto de vigilância participativa em comunidades rurais do Amazonas, começando por Manicoré

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) anunciou a expansão do projeto Saúde nas Margens, uma iniciativa inovadora de vigilância em saúde baseada na participação comunitária, para o município de Manicoré, no interior do Amazonas. Localizado na região do Arco do Fogo, Manicoré apresenta um território extenso, com cerca de 230 comunidades dispersas por áreas de difícil acesso e comunicação, enfrentando desafios significativos para o fortalecimento dos serviços públicos de saúde e a detecção precoce de riscos à saúde pública.

O projeto, desenvolvido pela Fiocruz Amazônia, visa implementar um modelo de Vigilância de Eventos Baseada em Comunidade (VEBC), que integra informações sobre saúde humana, animal e ambiental. Essa abordagem, fundamentada nos princípios de Uma Só Saúde (One Health), busca ampliar a capacidade de identificar, comunicar e monitorar eventos de interesse em saúde pública, possibilitando respostas mais ágeis e eficazes. A iniciativa pretende fortalecer a ligação entre moradores, profissionais de saúde e setores da gestão municipal, promovendo uma vigilância mais participativa e integrada.

A proposta inclui a utilização de um questionário estruturado em três componentes principais: saúde humana, saúde animal e saúde ambiental. No âmbito da saúde humana, serão registrados eventos como diarreias, problemas respiratórios, lesões de pele, intoxicações, acidentes de trabalho e óbitos. Na saúde animal, serão monitoradas agressões ou mordeduras por animais domésticos ou silvestres, mortes, infestação por pulgas e carrapatos, além de mudanças de comportamento. Quanto ao ambiente, serão observadas ocorrências relacionadas a lixo, água, contaminação do solo, desmatamento, queimadas, estiagem e alagamentos. Essa integração de dados permite uma compreensão mais ampla do território, possibilitando relacionar mudanças ambientais a possíveis impactos na saúde das populações e dos animais.

A iniciativa surge em um contexto de aumento de ameaças de doenças emergentes, como zika, chikungunya, febre amarela, Sars-CoV-2, mpox, esporotricose, dengue e febre oropouche, o que reforça a necessidade de vigilância rápida e eficiente. Segundo o pesquisador em Saúde Pública da Fiocruz Amazônia, Pritesh Lalwani, essa abordagem busca ampliar o monitoramento populacional além do nível laboratorial, contribuindo para a detecção precoce de sinais de risco, especialmente em regiões com vulnerabilidades ambientais, como Manicoré, onde a fumaça de queimadas agrava problemas respiratórios.

Para apoiar a coleta e gestão dessas informações, o projeto utiliza uma ferramenta digital que permite o registro de dados mesmo em locais sem conexão permanente à internet. Os agentes comunitários de saúde, agentes de combate às endemias, profissionais ambientais, professores e lideranças locais poderão inserir informações nos dispositivos móveis, enviando os dados posteriormente, quando houver sinal. Essa tecnologia visa ampliar a rede de observação no território, facilitando a comunicação entre comunidades e equipes de vigilância, além de fortalecer a resposta a eventos de saúde pública.

A primeira oficina de capacitação em Manicoré ocorreu de 27 a 31 de julho, com a participação de 44 profissionais de diferentes distritos do município, incluindo médicos, dentistas, enfermeiros, técnicos de enfermagem e representantes de secretarias municipais. A iniciativa conta com o apoio de órgãos públicos locais e envolve as sete equipes de Saúde da Família, que atendem entre 20 e 30 comunidades cada, além de 91 agentes comunitários de saúde e 13 agentes de combate às endemias. Segundo o coordenador da Vigilância em Saúde de Manicoré, Kedson Monteiro, a ferramenta deve facilitar o acompanhamento das comunidades diante das dificuldades logísticas.

A experiência em Manicoré representa uma etapa de teste do modelo de vigilância participativa em uma área de grande extensão, com comunidades remotas e desafios ambientais diversos. A avaliação dessa implementação visa aperfeiçoar a estratégia e avaliar sua potencial replicação em outros territórios da Amazônia. Especialistas destacam que, diante das mudanças ambientais e eventos climáticos extremos, fortalecer a capacidade local de identificar sinais de risco e comunicar ocorrências pode melhorar significativamente a preparação e a resposta dos municípios às emergências sanitárias.

O projeto Saúde nas Margens, apoiado pelo programa Inova Fiocruz – Emergências em Saúde Pública, busca consolidar uma abordagem integrada de vigilância, considerando as especificidades das áreas ribeirinhas e remotas da região. A iniciativa pretende ampliar a capacidade de detecção rápida de eventos de saúde, melhorar a comunicação entre comunidades e órgãos públicos e fortalecer a resposta a ameaças emergentes, contribuindo para a resiliência dos territórios amazônicos frente aos desafios ambientais e sanitários.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade