A cartunista Laerte Coutinho, de 75 anos, compartilhou suas reflexões sobre a transição de gênero, a relevância da Parada do Orgulho LGBTQIAPN+ e sua vida amorosa em uma recente entrevista ao Gshow. Durante a conversa, Laerte destacou a complexidade de sua identidade de gênero, afirmando que a expressão “virar mulher” não é adequada para descrever sua experiência. “A gente não vira mulher, a gente transita. Vive uma ideia de gênero que nos é peculiar, específica, e é isso que podemos fazer”, explicou.
A artista também abordou a Parada do Orgulho, que ocorre anualmente em diversas cidades do Brasil como uma celebração da diversidade sexual e de gênero. Para Laerte, o evento não representa a totalidade da realidade LGBTQIAPN+ no país. Ela descreveu a Parada como um “carnavalzão” e uma festa, mas não como um reflexo das condições sociais efetivas enfrentadas pela comunidade. “Não vejo movimentos assim como coisas cientificamente organizadas e objetivamente construídas para produzir um determinado efeito social. Ao mesmo tempo, não é um atestado que as relações do Brasil estão saudáveis. Pelo contrário, as coisas estão bem difíceis. A Parada, portanto, é parte de uma realidade que é ambígua”, afirmou.
Laerte também discorreu sobre sua vida amorosa, revelando que, em sua atual fase da vida, não sente mais a necessidade de se envolver em relacionamentos românticos. “Estou numa idade que não tenho mais vontade de sair por aí namorando, por exemplo. E, se tivesse, certamente, não seria com homens. Por quê? Não sei”, confessou. Essa declaração ressalta a complexidade de suas preferências e a evolução de sua identidade ao longo do tempo.
A chargista refletiu sobre as dificuldades que enfrentou ao tentar estabelecer relacionamentos com homens. “Qual era o problema de eu ter um namorado homem? Aparentemente nenhum, mas, dentro da minha cabeça, tinha esse problema. Nunca tive um namorado homem ostensivo e visível”, revelou. Essa confissão aponta para as barreiras internas que muitas pessoas enfrentam ao lidar com questões de gênero e sexualidade.
Por fim, Laerte comentou sobre o envelhecimento e a nostalgia em relação ao passado. “Gostaria de poder voltar atrás e fazer tudo diferente, mas, se voltasse, perderia a consciência das besteiras que fiz até os 75 anos. Queremos a cabeça e a memória que temos hoje, só que eu queria ter corpinho de 20, a bunda no lugar”, brincou, mostrando uma perspectiva leve sobre as mudanças que a vida traz.
As reflexões de Laerte Coutinho oferecem uma visão profunda sobre a experiência de ser uma mulher transgênero no Brasil contemporâneo, ao mesmo tempo em que destacam a necessidade de uma discussão mais ampla sobre as realidades enfrentadas pela comunidade LGBTQIAPN+.