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As Licenciaturas e o que fica nas margens

A segunda edição do Enade das Licenciaturas no novo modelo trouxe um número que rendeu manchetes: 42% dos concluintes não atingiram o padrão mínimo de proficiência. É um dado que justifica preocupação. Mas não descreve, sozinho, o Brasil real – um país educacional profundamente heterogêneo, em que a linha de chegada esconde pontos de partida muito desiguais.
Quem trabalha com educação a distância lida com a realidade de alunos mais maduros, que trabalham em regime de tempo integral, normalmente responsáveis pela renda da casa, vindos de famílias com menos anos de estudo e em municípios sem ampla oferta educacional. Sem a modalidade, esse público dificilmente teria chegado ao ensino superior. Ignorar esse perfil ao analisar o resultado de uma prova é um erro que desfoca o debate público.
Os números confirmam essa afirmação. Cerca de 94% dos concluintes da iniciativa privada com fins lucrativos foram avaliados em EaD; 92% dos da rede federal, no presencial. Comparar diretamente os dois agregados é comparar realidades distintas. Quando se padroniza a composição, o gap entre pública e privada cai significativamente. E há um achado consistente: o EaD tem notas inferiores em todas as categorias, inclusive na pública federal. A suposta fragilidade da modalidade, na verdade, reflete a realidade do aluno – mas não necessariamente da instituição.
Esse diagnóstico não é novo. Os microdados dos ciclos anteriores do Enade mostram que, controlando fatores como idade do estudante e capital cultural da família, a diferença entre EaD e presencial desaparece. O que pesa é o conjunto perfil-trabalho-família – variáveis que o agregado nacional silencia.
O debate ganha urgência diante da discussão regulatória em curso. Está em consulta pública uma proposta que amplia a carga horária presencial das licenciaturas e reduz a participação da educação a distância. O efeito previsível é maior evasão e redução de matrículas, com impacto direto sobre o acesso ao ensino superior justamente para o público que mais precisa dele.
Há ainda um efeito menos visível: o estrangulamento das margens do sistema – os territórios aos quais conseguimos fazer o EaD chegar. A formação de professores em um país do tamanho do Brasil não comporta uma média única. A pergunta produtiva não é quem tirou a melhor nota, mas onde estão os déficits, atendendo a quem, e como ampliar acesso e qualidade sem fechar portas. Por essas portas entra hoje grande parte dos novos professores do país.
Rodolfo Guimarães é executivo da área de educação

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade