Após mais de 40 anos sem registros e figurando há anos na lista de espécies extintas, o gafanhoto de Monte Gordo (Eyprepocprifas insularis) foi novamente avistado. Vários indivíduos da espécie foram observados, incluindo a primeira fêmea identificada e catalogada pelos pesquisadores.
A redescoberta ocorreu na ilha de São Nicolau, em Cabo Verde. De acordo com uma nova pesquisa publicada no Journal of Orthoptera Research, realizada por cientistas da Universidade de Montpellier, na França, a última vez que um exemplar da espécie havia sido visto foi em 1980, levando à declaração de extinção em 1996.
O reencontro inicial aconteceu em janeiro de 2023, durante uma expedição informal conduzida pelos pesquisadores Rob Felix e Annelies Jacobs nas florestas de Cabo Verde, que tinha como objetivo principal observar aves raras. Contudo, os cientistas prepararam uma lista de espécies extintas da área, com a esperança de redescobrir alguma delas.
“Era um desejo simples reencontrar o gafanhoto. Na nossa primeira noite, nos deparamos com ele parado na trilha”, recorda o biólogo Felix.
Nos dias subsequentes, os pesquisadores conseguiram localizar diversos indivíduos da espécie em várias áreas do Parque Natural de Monte Gordo. As imagens e vídeos capturados por eles foram validados por especialistas.
O E. insularis é endêmico da ilha de São Nicolau e é descrito como um “fóssil vivo”, tendo sofrido poucas alterações ao longo de milhares de anos. Esse inseto é o único braquíptero, com asas curtas, que é exclusivo de uma região tão restrita do planeta.
Sem parentes próximos conhecidos, ele sobrevive em um ecossistema isolado há milhões de anos. “O E. insularis deve estar presente há muito tempo e conseguiu resistir a condições ecológicas adversas”, afirmam os pesquisadores no artigo.
Adicionalmente, o estudo apresenta pela primeira vez a fêmea da espécie e analisa as características do habitat onde foi encontrada.
Apesar da redescoberta, a espécie ainda enfrenta riscos significativos. Os cientistas ressaltam que a confirmação da existência do gafanhoto reforça a necessidade urgente de implementar medidas de conservação, considerando a vulnerabilidade ecológica da região. “Agora que o encontramos, temos a chance de agir para proteger essa espécie singular e seu habitat”, alertam os pesquisadores.
Sugere-se que o gafanhoto de Monte Gordo seja incluído na Lista Vermelha da União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN), que classifica espécies ameaçadas. A limitação geográfica e a população escassa elevam o risco de extinção.
Os autores destacam que essa redescoberta é apenas o primeiro passo. A sobrevivência da espécie depende de ações coordenadas entre cientistas, governos e organizações ambientais, focadas na proteção do habitat natural e na mitigação de ameaças.