Pela primeira vez no Brasil, um leilão voltado para baterias está movimentando o mercado financeiro, com interesse crescente de investidores, tanto nacionais quanto internacionais, em explorar um novo nicho do setor energético. Especialistas de instituições financeiras que atuam no financiamento de grandes empreendimentos observam uma demanda significativa por parte das empresas em relação ao evento, embora exista preocupação com possíveis atrasos na sua realização. O ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, declarou que o leilão deve acontecer até junho, embora a previsão inicial apontasse para abril.
“Allan Gabriel, que lidera a área de financiamento de grandes projetos de energia no Itaú BBA, comentou que há um intenso diálogo sobre o leilão e um número considerável de interessados. Por se tratar de uma iniciativa inédita, ela tem atraído a atenção de diversos agentes do setor energético, e a expectativa é de uma competição acirrada.”
Julio Meirelles, responsável pelos financiamentos de energia no Santander, também constatou um elevado interesse do setor privado. “Este leilão representa uma oportunidade de investimento com um contrato de alto grau de previsibilidade e um produto em grande demanda. Há um número significativo de interessados”, afirmou.
Devido à natureza inovadora do segmento, os possíveis participantes do leilão possuem perfis variados. Transmissores, geradores de energia e grupos verticalmente integrados estão buscando informações junto aos bancos. Para os geradores, essa disputa pode ser uma chance ainda mais significativa, especialmente em um cenário onde o setor enfrenta uma escassez de novos projetos, resultante da prática do “curtailment”. Esse termo refere-se à restrição da energia que pode ser inserida na rede, com o Operador Nacional do Sistema (ONS) realizando cortes na geração, principalmente de fontes eólica e solar, quando a oferta supera a demanda. Nos últimos três anos, essas interrupções se tornaram mais frequentes devido ao aumento da geração distribuída, que é a energia produzida pelos consumidores com painéis solares em residências e estabelecimentos comerciais.
A expectativa do mercado é que empresas consolidadas do setor energético participem do leilão. Existe a possibilidade de fabricantes chineses de baterias apresentarem propostas, mas é mais provável que atuem como fornecedoras de equipamentos para as concessionárias.
Apesar do grande interesse no leilão, algumas definições ainda são aguardadas pelos investidores antes que possam tomar decisões sobre suas ofertas, conforme apontam especialistas. Um ponto crucial é o tamanho do leilão. O ministro Alexandre Silveira sugeriu que a capacidade seria de 2 GW. “Menos do que isso poderia decepcionar as expectativas”, ressalta Julio Meirelles, do Santander. Segundo ele, um leilão de menor magnitude pode não justificar o investimento de tempo e recursos por parte do setor privado na análise do certame.
Markus Vlasits, presidente do conselho da Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia (Absae), acredita que 2 GW é um volume adequado para um primeiro leilão. Ele destaca que a expectativa do setor é que este evento sirva como um experimento para futuras disputas.
“Consideramos que esse volume é apropriado. O total de microgeração de energia solar no Brasil é de 45 GW, indicando que 2 GW ainda é um valor modesto, mas significativo para um leilão inaugural.”
O Plano Decenal de Expansão de Energia 2034, elaborado pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), prevê que o Brasil necessitará de 55 GW de potência adicional até 2034. De acordo com estimativas da Absae, as baterias poderiam contribuir com 9 GW, ou 16% do total necessário.