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Wagner Moura brilha e revela que a vingança é um banquete com tempero de dendê

Imagem: Reprodução

A noção de ser estrangeiro varia conforme a perspectiva. O mesmo se aplica ao cinema. No Brasil, consideramos filmes nacionais aqueles que são falados em português, filmados em solo brasileiro e, em sua maioria, estrelados por artistas locais. Por outro lado, nos Estados Unidos, os filmes nacionais são aqueles produzidos em Hollywood, falados em inglês e… você entende. Afinal, sendo brasileiro, você capta a ideia facilmente.

No último domingo, Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho vivenciaram uma situação inusitada durante a cerimônia do Critics Choice Award. Os filmes estrangeiros, que são considerados de menor relevância em relação à produção nacional nas terras que Trump governa, recebem suas premiações antes da transmissão oficial pela TV. O Brasil saiu vitorioso, mas os brasileiros não puderam ver Wagner e Kleber subirem ao palco, pois o prêmio foi entregue de forma apressada, enquanto o público ainda estava no tapete vermelho.

Olha, existem muitas maneiras de provocar um brasileiro, mas não tente impedi-lo de celebrar uma vitória. Os fãs ficaram indignados e foram reclamar no lugar ideal para isso: as redes sociais. Se manifestaram tanto que alarmaram os organizadores do prêmio, que, temendo um cancelamento, tomaram uma decisão rápida. Chamaram a dupla nordestina para apresentar o prêmio de melhor filme no palco, oferecendo assim uma chance de apaziguar os ânimos exaltados na internet.

Com elegância, eles agradeceram pela premiação que havia sido concedida momentos antes. Wagner aproveitou a oportunidade para fazer uma observação espirituosa que você provavelmente viu circulando nas redes recentemente: “O prêmio de melhor filme, que no Brasil é chamado de filme internacional”. A piada é pertinente, pois não é comum que um americano perceba que existem culturas que também se consideram centros de referência. Como um Copérnico contemporâneo, vestindo um elegante quimono de veludo, Wagner Moura utilizou seu charme inconfundível para mostrar aos americanos que eles não são o centro do mundo. “Americanos”, como costumam se referir entre si, estão equivocados: eu e você também pertencemos a este continente, e não, este lugar não é o quintal dos Estados Unidos.

Essa cena me recordou de dois jovens americanos que conheci em Barcelona, na Espanha. Eles haviam retornado recentemente do Afeganistão, onde combateram em defesa de sua pátria. Veteranos, receberam uma compensação financeira do governo americano pela bravura e por voltarem vivos. Optaram por gastar o dinheiro na praia do Mediterrâneo, famosa por permitir o topless. Eu estava sozinha na areia, lendo e observando a conversa deles, que girava em torno de: 1) os seios das garotas, 2) suas Budweisers e 3) a saudade que um dos cães deles estava fazendo na viagem.

Não recordo exatamente como comecei a interagir com eles – creio que precisaram de ajuda com a tradução em espanhol para se comunicar com alguém e eu, por compaixão, decidi ajudar os soldados. Eles ficaram totalmente surpresos ao saber que eu era brasileira (não sabiam exatamente onde ficava o Brasil e perguntaram se era próximo da Espanha), que falava português (expliquei que esse é o idioma oficial do meu país), que entendia o inglês deles e conseguia me comunicar em espanhol na praia. “Nunca conheci alguém que falasse mais de um idioma”, disseram-me.

Nunca ter encontrado alguém que fala múltiplas línguas é um reflexo da autossuficiência de uma nação que prefere ignorar o resto do mundo. Sua música, sua cultura cinematográfica, seu poder militar e sua riqueza são alguns dos símbolos de uma supremacia que acreditam lhes conferir o direito (e até o dever, segundo alguns) de invadir outros países e lucrar com isso.

Wagner Moura sobe ao palco porque seu povo fez barulho nas redes sociais. “Para nós, vocês fazem filmes gringos, meus amigos”, ele explica, sem precisar dizer uma palavra, apenas com um sorriso que poderia derreter fronteiras. A nossa nação aprecia essa cena, assim como desfrutamos de nossa culinária rica e variada no vasto território que habitamos. A vingança, afinal, tem um sabor especial com um toque de dendê. E nós falamos mais de uma língua para fazer a piada de forma que eles consigam entender.

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Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade