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Abelhas pré-históricas utilizavam ossos como abrigo em caverna do Caribe

Osnidum almontei . (Viñola Lopez et al., R. Soc. Open Sci ., 2025)

Uma caverna antiga localizada no Caribe revelou um comportamento inédito na história das abelhas: esses insetos utilizavam ossos de animais mortos como abrigo para a construção de seus ninhos. A descoberta foi realizada por cientistas que estudaram fósseis encontrados na Cueva de Mono, uma caverna de calcário situada na ilha de Hispaniola, que atualmente abriga a República Dominicana e o Haiti.

O estudo, publicado em 17 de dezembro na revista Royal Society Open Science, documenta o primeiro registro conhecido de abelhas que habitavam e se reproduziam dentro de ossos de vertebrados, aproveitando cavidades naturais deixadas principalmente por dentes. A caverna também serviu como abrigo para uma extinta espécie de coruja gigante, que caçava pequenos mamíferos e deixava seus ossos acumulados após se alimentar. Com o passar dos milênios, a caverna se encheu de mandíbulas, crânios e outros restos de roedores, além de ossos de preguiças que também já não existem.

Nesse contexto, as abelhas encontraram uma oportunidade peculiar: os espaços ociosos dentro dos ossos, especialmente aqueles onde antes havia dentes, funcionavam como cavidades ideais para a construção de ninhos. Durante a análise dos fósseis, os pesquisadores notaram que algumas dessas cavidades não estavam preenchidas naturalmente por sedimentos. Em vez disso, apresentavam um formato liso e arredondado, similar a estruturas criadas por insetos.

Exames de tomografia computadorizada, que possibilitam a visualização do interior dos ossos sem causar danos, confirmaram essas suspeitas. Dentro das cavidades, foram encontradas pequenas câmaras organizadas, semelhantes às células que as abelhas utilizam para depositar ovos e armazenar alimento para suas larvas. Em alguns ossos, os cientistas identificaram até seis camadas de ninhos sobrepostos, indicando que as mesmas estruturas foram reutilizadas por diferentes gerações de abelhas ao longo do tempo.

A pesquisa sugere que esses ninhos foram construídos por abelhas solitárias, que não vivem em colmeias nem produzem mel. Ao contrário das abelhas sociais, essas espécies constroem ninhos individuais, geralmente no solo, em troncos ou em pequenas cavidades naturais. No cenário da ilha caribenha, o ambiente pode ter influenciado esse comportamento singular. O solo raso e pedregoso da região tornava a escavação difícil, levando as abelhas a buscar alternativas mais seguras, como os ossos acumulados na caverna.

Além disso, os ossos ofereciam proteção contra predadores, garantiam uma temperatura estável e um nível de umidade adequado, criando um ambiente propício para o desenvolvimento das larvas. Embora os pesquisadores não tenham encontrado fósseis das próprias abelhas — o que é comum, já que insetos pequenos raramente se preservam em ambientes úmidos como cavernas —, os vestígios deixados pelos ninhos foram suficientes para identificar esse comportamento inédito.

Esses vestígios foram denominados cientificamente de Osnidum almontei, em homenagem ao pesquisador dominicano Juan Almonte Milan, que contribuiu para a identificação e estudo do local fossilífero. Até então, não havia registro de abelhas utilizando ossos de outros animais como locais para reprodução. Essa descoberta amplia o entendimento sobre a adaptabilidade desses insetos, demonstrando que, mesmo no passado distante, eles eram capazes de explorar soluções inovadoras para a sobrevivência.

Para os cientistas, essa descoberta serve também como um alerta: detalhes aparentemente simples em fósseis podem esconder comportamentos complexos do passado. Se as cavidades tivessem sido analisadas superficialmente, esse intrigante capítulo da história das abelhas poderia ter permanecido oculto.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade