Uma investigação de âmbito internacional, realizada em colaboração com pesquisadoras da Universidade de São Paulo (USP), indica que as cidades situadas nas proximidades de Terras Indígenas (TI) demarcadas apresentam um risco reduzido para doenças cardiovasculares, respiratórias e zoonóticas. As tradições de comunidades indígenas podem ser aliadas no enfrentamento de novas pandemias. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.
O novo estudo, inédito, revela a importância das Terras Indígenas na proteção da saúde pública e na redução da transmissão de doenças. Os resultados foram divulgados na revista científica Communications Earth & Environment, parte do grupo Nature. A pesquisa integrou esforços de instituições de oito países amazônicos e analisou 20 anos de dados, de 2000 a 2019, em relação a 27 doenças, sendo 21 respiratórias ou cardiovasculares e 6 zoonóticas ou transmitidas por vetores. A análise demonstra que a preservação das reservas florestais está diretamente relacionada à proteção contra essas doenças.
“A frequência de doenças diminui à medida que os territórios são conservados e protegidos”, afirma Júlia Barreto, primeira autora do estudo. Ela enfatiza que a continuidade das Terras Indígenas pode reverter os danos causados por queimadas e a disseminação de doenças como malária e febre maculosa. “Os povos indígenas oferecem alternativas mais saudáveis”, completa.
Júlia ressalta a relevância da abordagem colaborativa na pesquisa, que permitiu a inclusão de diversas perspectivas dos territórios amazônicos. A bióloga argumenta que a interação entre cientistas de diferentes origens é crucial para gerar impactos significativos. “A Amazônia é um bioma que se estende por fronteiras. Esse diálogo deve ser abrangente.”
De acordo com os dados apresentados, 80,3% das doenças identificadas na região amazônica estão ligadas às queimadas que afetam o bioma, totalizando quase 23 milhões de casos entre os cerca de 30 milhões reportados de 2000 a 2019. Já 19,7% são doenças zoonóticas ou transmitidas por vetores.
“Um incêndio pode impactar a saúde de indivíduos a até 500 quilômetros de distância”, explica Paula Prist, coautora da pesquisa e coordenadora do programa de Florestas e Campos da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN). Ela detalha que as partículas poluentes geradas pelas queimadas são tão diminutas (aproximadamente 2,5 micrômetros) que podem se dispersar pelo vento e afetar populações distantes. Paula ressalta que a incidência de problemas respiratórios cresce em consonância com o aumento das queimadas na Amazônia.
As doenças respiratórias analisadas incluem pneumonia não específica, inflamações nas vias respiratórias e embolia pulmonar. Os problemas cardiovasculares foram contabilizados para observar os efeitos a longo prazo dos incêndios na saúde humana, englobando arritmias, infartos e inflamações cardíacas.
Os poluentes estão intimamente ligados ao adoecimento da população, mas Paula observa que a cobertura florestal atua como um antídoto: “Quanto mais intacta a floresta e mais verde a vegetação, maior a capacidade de absorção dos poluentes.” Benefícios também são notados na propagação de zoonoses, como a hantavirose, e doenças transmitidas por vetores, como a malária.
“Quando a floresta é fragmentada, animais silvestres se aproximam das áreas habitadas por humanos, aumentando o contato com vetores e, consequentemente, a exposição a surtos zoonóticos”, comenta Paula. Ela enfatiza que as Terras Indígenas funcionam como barreiras sanitárias, preservando uma diversidade de hospedeiros que reduz a transmissão de doenças.
“Preservar ecossistemas e reconhecer os territórios indígenas é uma estratégia direta para mitigar a chance de futuras pandemias”, conclui Paula Prist.
“Para diversas enfermidades, é evidente o benefício da demarcação das Terras Indígenas, pois essas comunidades têm demonstrado uma capacidade superior de cuidar da saúde da Amazônia”, finaliza Júlia. Ela aponta que os efeitos positivos se estendem não apenas às Terras Indígenas, mas também a municípios amazônicos que possuem pelo menos 40% de cobertura florestal.
As pesquisadoras argumentam que garantir os direitos territoriais indígenas é fundamental para a preservação das florestas e os benefícios à saúde que elas proporcionam. “Os resultados indicam que o manejo sustentável indígena em áreas demarcadas gera impactos positivos para a saúde. Sem o reconhecimento territorial, fica difícil promover esses serviços”, analisa Paula.
A condição da floresta é crucial para entender como as Terras Indígenas influenciam a transmissão de doenças. Quando uma área não é regularizada, segundo a pesquisadora, é complicado compreender como o manejo ocorre ou se a área está sendo ameaçada. Em geral, os efeitos benéficos são observáveis apenas quando as TI são regularizadas e mantêm altos níveis de cobertura vegetal.
“Estamos falando de um conhecimento ancestral que traz consequências positivas para a saúde”, afirma Júlia. Ela menciona que os efeitos positivos das comunidades tradicionais na conservação da biodiversidade, na preservação da floresta e na contenção de queimadas já eram conhecidos, mas agora surge uma nova perspectiva para reivindicar os direitos indígenas e promover ecossistemas saudáveis.
“Os indígenas nos mostram caminhos mais sustentáveis. Eles são essenciais para a preservação da biodiversidade”, destaca Júlia Barreto.
“Durante muito tempo, focamos apenas nas causas, como desmatamento, perda de biodiversidade e mudanças climáticas. Mas chega um momento em que precisamos pensar em como mitigar esses problemas”, reflete Paula. As pesquisadoras acreditam que a ciência de base pode facilitar a integração da sustentabilidade indígena na pesquisa e, potencialmente, na gestão pública.
“Este é o primeiro banco de dados que permite pensar no gerenciamento de toda a região amazônica”, destaca Júlia. Ela observa que é a primeira sistematização de informações acessíveis que pode gerar impactos na saúde em toda a região. Com a Amazônia prestes a sediar a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30), as pesquisadoras esperam que suas descobertas influenciem a gestão pública. Para isso, os dados sobre doenças em cada região foram disponibilizados para acesso público.
A malária é uma das principais preocupações. “Ela representa o maior desafio de saúde na população”, salienta Paula. O estudo da doença era essencial devido ao seu impacto na região. As pesquisadoras assinalam que a lacuna se encontra na ausência de um programa panamazônico de monitoramento: os países não reportam as mesmas doenças e não possuem legislações indígenas equivalentes, resultando em dados que cobrem períodos distintos. No Suriname, apesar da densa arborização, as Terras Indígenas não são demarcadas. Na Venezuela, os dados sobre malária são limitados a 2017, enquanto apenas Brasil e Guiana Francesa contam com informações recentes.
“A Amazônia está em debate no cenário internacional”, recorda Júlia. Segundo ela, a gestão da região deve ser uma preocupação global, pois os efeitos serão sentidos mundialmente. “Se as evidências sobre o papel dos indígenas na conservação não foram suficientes para garantir sua proteção, agora trazemos mais uma – sobre saúde.”
O artigo intitulado “Terras Indígenas podem proteger a saúde humana dependendo da estrutura da paisagem e do status legal” pode ser lido aqui.
*Este conteúdo foi originalmente publicado pelo Jornal da USP, redigido por Theo Schwan sob orientação de Tabita Said.