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Personalidade nos Peixes: Tímidos, Aventureiros e Ansiosos

sakchai vongsasiripat/Gettyimages

*Este texto foi elaborado pela pesquisadora Marie-Laure Bégout, do Institut Français de Recherche pour l’Exploitation de la Mer (Ifremer), França, e publicado na plataforma The Conversation Brasil.

A personalidade humana tem sido objeto de estudo por muitos anos, e desde 1990, cinco traços principais (abertura, conscienciosidade, extroversão, amabilidade e neuroticismo) foram definidos para descrever este aspecto. Esses traços também foram observados em diversos animais terrestres, especialmente em ambientes controlados como as fazendas, onde ajudam a avaliar o desempenho e o bem-estar dos animais.

Nos animais, a personalidade pode ser dividida em cinco características: timidez versus ousadia (em situações de risco), exploração (diante de novas experiências), nível de atividade, agressividade e sociabilidade. Essas características estão frequentemente interligadas e são designadas como tipologias comportamentais.

Existem duas respostas extremas a essas características, com os indivíduos se posicionando ao longo de um espectro que vai do proativo, que tende a lutar ou fugir, ao reativo, que geralmente apresenta uma resposta de congelamento e uma timidez acentuada.

Esses padrões de comportamento foram primeiramente observados em aves e mamíferos, e em relação aos peixes, pesquisas realizadas nos últimos 20 anos demonstraram que, assim como outros animais, eles possuem habilidades cognitivas complexas, capacidade de aprendizado e memória, essenciais para sua inteligência. Essas habilidades permitem que os peixes enfrentem os desafios de sobrevivência em seus ambientes naturais e sociais, variando de acordo com suas personalidades, que podem ser mais tímidas ou mais ousadas.

Um aspecto fundamental das pesquisas é o desenvolvimento de métodos experimentais que sejam adequados para medir esses traços de personalidade em peixes, considerando o ambiente aquático e as características sociais desses animais. A precisão na configuração e nos procedimentos dos testes é crucial para evitar confusões nos resultados.

Para investigar esses traços, utilizamos diferentes abordagens. Em algumas situações, por exemplo, medimos o comportamento ou o nível de ansiedade de um peixe ao expô-lo a um novo ambiente, observando sua resposta imediata (atividade de natação). Em outras, aplicamos um período de aclimatação antes de medir as características de interesse.

Em nosso laboratório, contamos com diversos dispositivos para avaliar as capacidades comportamentais de espécies como o medaka, o zebrafish e o robalo. Esses dispositivos incluem labirintos, arenas de observação e equipamentos que permitem a filmagem dos peixes, cujos movimentos são analisados posteriormente com software especializado.

Para caracterizar os traços de personalidade, geralmente começamos com testes realizados com indivíduos isolados. Inspirados em testes desenvolvidos para roedores, estamos estudando a exploração de labirintos em peixes marinhos, utilizando gravações de vídeo 2D para registrar seus movimentos.

Durante um experimento, um peixe é colocado em uma área sombria e, após um período de aclimatação, um portão é aberto, permitindo que ele explore corredores adjacentes sem recompensas específicas. Esse teste avalia tanto a ousadia (ao sair da área protegida) quanto a disposição para explorar um novo ambiente.

Os resultados mostraram que a experiência alimentar prévia dos peixes (se foram alimentados em horários fixos ou variáveis) influenciava sua ousadia: aqueles alimentados em horários fixos tendiam a ser menos ousados. Em um contexto de ecotoxicologia, também observamos que poluentes poderiam alterar o nível de ousadia, atividade e capacidade exploratória dos peixes expostos.

O manuseio dos indivíduos durante os testes pode causar estresse, afetando suas respostas comportamentais. Para minimizar esse impacto, registramos a atividade de natação em grupos de seis a dez peixes, o que nos permite avaliar suas reações dentro do grupo. Indicadores como a intensidade da atividade, a distância entre os peixes e a utilização do espaço ajudam a medir o estresse e a ansiedade. A zona central do aquário, que representa uma área mais exposta, é geralmente preferida por peixes corajosos, enquanto os tímidos tendem a evitá-la.

Para diferenciar características comportamentais em um único teste, é muitas vezes necessário realizar múltiplos experimentos e assegurar a consistência das respostas. Por exemplo, uma diminuição na oxigenação pode aumentar a tigmotaxia, enquanto reduz a atividade e a coesão do grupo. Essas informações, combinadas com medições de estresse, como os níveis de cortisol, ajudam a avaliar o bem-estar dos peixes.

Fomos pioneiros na medição da audácia e atividade individual em grandes grupos, de 500 a 1500 indivíduos. Para isso, implementamos um separador em tanques de criação de 5 m³, com uma passagem circular de 10 cm. Cada peixe, equipado com um chip eletrônico, é monitorado quando se arrisca a deixar o grupo, e os resultados de três testes realizados em intervalos de semanas mostraram que os traços de personalidade se mantiveram estáveis ao longo do tempo.

O bem-estar animal, conforme definido pela Agência Francesa de Segurança Alimentar, Ambiental e do Trabalho (ANSES), é um estado positivo que abrange a satisfação das necessidades fisiológicas e comportamentais dos animais. Esse estado é influenciado pela percepção que o animal tem da sua situação.

Esses exemplos ilustram como, ao desenvolver métodos de observação adequados, podemos entender melhor os peixes, suas necessidades e expectativas, além de suas habilidades cognitivas, superando o estereótipo de “memória de peixinho dourado”. Repensar o papel dos animais, incluindo os peixes, em nossas sociedades é crucial para a compreensão e preservação da biodiversidade, especialmente em tempos de mudanças globais.

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Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade