A rabanada, uma deliciosa fatia de pão embebida em leite, frita e polvilhada com açúcar e canela, é um clássico nas ceias de fim de ano. No entanto, essa combinação irresistível que encerra as refeições festivas poderia ser vista como a vilã das sobremesas dessa época? É essencial lembrar que nenhum alimento, por si só, é prejudicial, desde que se tenha consciência da porção e da frequência do consumo.
A nutricionista Glória Guizellini observa que muitos pratos, como a rabanada, são saboreados apenas em datas comemorativas. Durante esses períodos, a oferta de alimentos mais calóricos aumenta, mas isso faz parte de um contexto festivo, portanto, não há razão para sentir culpa ao degustar essas iguarias.
Embora os especialistas em nutrição reconheçam que a rabanada possui um conteúdo significativo de calorias devido à fritura em óleo, ela não é a opção mais calórica da ceia. O verdadeiro problema, como frequentemente acontece com a alimentação, é o excesso. Nas festividades de fim de ano, é comum que as pessoas consumam mais do que o necessário, o que pode levar a desconfortos como inchaço abdominal, azia e náuseas. Portanto, não é a rabanada que causa esses sintomas, mas sim a quantidade ingerida.
Guizellini recomenda que o ideal é comer com atenção, respeitando a própria saciedade, sem exageros ou restrições desnecessárias.
Sobre a rabanada, os nutricionistas esclarecem que, embora deva ser consumida com moderação, ela não é a mais calórica das opções disponíveis. A profissional, que possui mestrado em Nutrição e Saúde Pública pela USP, explica que uma fatia grossa de rabanada, feita com pão francês, leite, ovos, açúcar e frita em óleo, contém cerca de 175 calorias por 60 gramas, conforme a Tabela de Composição de Alimentos do IBGE. Esse valor é consideravelmente menor do que o de um punhado de amendoim ou de salame, frequentemente servidos como aperitivos durante as celebrações.
Para ilustrar, seis fatias de salame somam aproximadamente 190 calorias, enquanto uma colher de sopa de amendoim chega a quase 230 calorias, superando facilmente a quantidade calórica de uma fatia de rabanada, como ressalta a nutricionista.
As principais preocupações em relação à rabanada são a fritura, que eleva o conteúdo calórico da sobremesa, e a quantidade de açúcar utilizada. Eliana Bistriche Giuntini, nutricionista e pesquisadora do Food Research Center da USP, observa que a rabanada é uma fonte de proteínas, provenientes do leite e dos ovos, mas o método de preparo resulta em uma absorção significativa de gordura. Além disso, a camada generosa de açúcar polvilhada após o preparo pode causar picos de glicose no sangue, especialmente se consumida pela manhã, o que é problemático para pessoas com resistência à insulina ou diabetes.
Para aqueles que não abrem mão da rabanada durante as festas, mas buscam uma versão menos calórica, as nutricionistas oferecem sugestões para torná-la mais saudável. Um aspecto importante é a fritura; embora seja fundamental para obter a crocância desejada, existem alternativas que não utilizam óleo e preservam o sabor.
“É possível assar a rabanada no forno ou utilizar uma fritadeira elétrica (air fryer) para manter a textura crocante por fora e macia por dentro”, sugere Guizellini. Ela também enfatiza a importância de controlar o tempo e a temperatura de preparo para evitar que a sobremesa fique seca. Outra alternativa mencionada por Giuntini é tostar o pão em uma frigideira antiaderente com um mínimo de óleo, evitando assim a fritura por imersão. Além disso, é aconselhável evitar o uso de leite condensado, que não faz parte da receita tradicional e adoça ainda mais a preparação, além de moderar a quantidade de açúcar no final.
Embora algumas opções da ceia sejam realmente mais calóricas e existam maneiras de torná-las mais saudáveis, as nutricionistas reiteram que o equilíbrio é o aspecto mais importante. O ato de comer, especialmente durante as festividades, envolve muito mais do que a comida em si; é um momento de celebração, afeto e convivência que deve ser vivenciado e respeitado. Mesmo que haja muitos pratos especiais, a moderação continua sendo fundamental.
“É possível desfrutar das festas provando um pouco de tudo, mas em porções moderadas. A culpa surge quando temos consciência de que estamos exagerando”, reflete Eliana. Portanto, para aqueles que não têm restrições alimentares ou precisam seguir dietas específicas, nada na ceia deve ser evitado, apenas dosado.
“Experimente um pouco de tudo, não apenas as sobremesas, mas todas as opções. Respeite sua saciedade e ouça seu corpo. Coma com atenção e presença”, recomenda Glória Guizellini.