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Trump realiza uma série de auto-homenagens, batizando centro cultural e navios com seu nome; analista considera situação sem precedentes para a oposição nos EUA

1 de 7 O presidente dos EUA, Donald Trump, assina decretos executivos na Casa Branca, em 18 de dezembro de 2025 — Foto: REUTERS/Evelyn Hockstein

Em menos de um ano no cargo, o presidente Donald Trump tem se auto-homenageado em diversas ocasiões e anúncios, buscando deixar sua marca — de forma literal — na história.

Trump incluiu seu nome no plano de paz para a Faixa de Gaza, em instituições significativas dos EUA e em iniciativas lançadas por sua administração, o que frequentemente gera polêmica e críticas. A mais recente dessas auto-homenagens foi a revelação de uma nova classe de navios de guerra da Marinha dos EUA, que levará o nome de Trump. Outra mudança notável foi a renomeação do Kennedy Center, um prestigiado centro cultural em Washington D.C.

Maurício Santoro, doutor em ciência política pelo Iuperj e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, afirma que essa tendência de auto-homenagens por parte de Trump é inédita na história americana. Segundo ele, essa prática desafia os mecanismos de freios e contrapesos da democracia dos EUA e reflete uma busca por autoafirmação após a derrota nas eleições de 2020, algo incomum para um presidente em exercício, especialmente após sua condenação no caso Stormy Daniels.

“É algo extremamente raro, não apenas nos EUA, mas em democracias em geral. Para encontrar um comportamento semelhante, é preciso olhar para ditaduras quase folclóricas, como a Coreia do Norte”, comentou Santoro ao g1.

Abaixo, alguns exemplos das auto-homenagens de Trump desde que retornou à Casa Branca, juntamente com uma análise de sua postura:

**Kennedy Center**
O que é: O Kennedy Center é um centro cultural nacional dos EUA, localizado em Washington D.C., e serve como um memorial ao ex-presidente John F. Kennedy, sendo um dos principais palcos do país para teatro, ópera e outras artes.
O que Trump fez: Mudou o nome do instituto para “The Trump Kennedy Center”.
Reação: Houve indignação, especialmente entre historiadores e familiares de Kennedy, já que a homenagem se baseava no legado do ex-presidente em decorrência de seu assassinato em 1963. Legisladores democratas contestaram essa alteração.

Para Santoro, essa foi a mudança mais surpreendente até agora. “Kennedy mereceu a homenagem após seu assassinato. O mais apropriado para Trump seria ter um reality show em sua homenagem”, afirmou.

**Navios de guerra**
O que é: Uma nova classe de navios de guerra que será adicionada à Marinha dos EUA quando estiver pronta.
O que Trump fez: Anunciou que essas embarcações militares serão chamadas de “classe Trump”.
Reação: Críticas de democratas e especialistas em Defesa, que argumentaram que as novas embarcações não deveriam ser nomeadas em honra a figuras históricas, como é a tradição, e apontaram que o anúncio tinha conotações simbólicas e eleitorais, ocorrendo durante um evento em Mar-a-Lago.

**Instituto da Paz**
O que é: O Instituto de Paz dos EUA é uma entidade independente, apartidária e sem fins lucrativos, financiada pelo Congresso, que apoia o governo dos EUA na resolução de conflitos no exterior.
O que Trump fez: Renomeou o instituto para “Instituto da Paz Donald Trump”.
Reação: Analistas de política externa e políticos democratas demonstraram indignação, considerando a mudança “narcisista” e um ataque à tradição de instituições independentes nos EUA.

**’Plano de Paz de Trump para Gaza’**
O que é: Uma proposta de 20 pontos destinada a encerrar o conflito entre Israel e Hamas na Faixa de Gaza, que resultou em mais de 60 mil palestinos mortos.
O que Trump fez: Retomou os esforços do governo Biden para elaborar um novo documento, denominado “plano de paz de Trump”, e buscou o consentimento das partes envolvidas.
Reação: Trump foi elogiado por políticos de diversas partes do mundo, especialmente no dia da assinatura pública do acordo no Egito, embora não tenha havido a presença de representantes de Israel e do Hamas.

**Um cenário sem precedentes nos EUA**
A série de auto-homenagens que Trump tem realizado em seu segundo mandato é inédita na história americana e contribui para a percepção de que a democracia dos EUA está em crise, segundo Santoro.

Com essa nova postura “folclórica”, que se distancia mesmo de seu primeiro mandato, Trump rompeu com uma tradição de homenagens póstumas estabelecida por um acordo informal entre líderes dos EUA baseado no bom senso. Santoro observa que Trump “implodiu” esses entendimentos informais, não havendo paralelo com nenhum outro presidente.

Adicionalmente, a Constituição dos EUA não impede que um presidente dê seu próprio nome a instituições e políticas — uma brecha que Trump parece ter explorado, segundo Santoro. No Brasil, a história é diferente, já que as experiências de regimes autoritários serviram como uma “vacina” contra esse tipo de comportamento, o qual é vedado pela Constituição de 1988.

“Trump não esperou sua morte para se auto-homenagear em vida. Isso é surpreendente, mas muitos de seus comportamentos neste novo mandato podem ser impulsionados por um desejo de autoafirmação, quase uma vingança pelas frustrações que ele enfrentou nos últimos anos”, acrescentou Santoro.

Entre as adversidades enfrentadas por Trump estão a derrota para Joe Biden nas eleições de 2020 — uma situação rara para um presidente em exercício —, a qual ele ainda nega, e a condenação no caso Stormy Daniels, tornando-se o primeiro presidente a ser julgado criminalmente no país.

“Assim, quando ele retornou à Casa Branca, voltou marcado por ressentimentos e derrotas, desejando provar que é o grande vencedor”, disse Santoro.

Para o professor, a democracia americana está perdendo seus freios e contrapesos diante da “política carismática” de Trump. Portanto, a oposição democrata terá um papel crucial em frear o presidente. Contudo, dado que os EUA não possuem um histórico robusto de combate ao autoritarismo e que Trump controla a maioria no Congresso e na Suprema Corte — onde muitos desafios legais inevitavelmente acabarão —, essa luta promete ser complexa.

Do ponto de vista da população, as auto-homenagens de Trump também alimentam a percepção entre muitos americanos de que a democracia está em crise, conforme Santoro.

Um paralelo com a situação de Trump pode ser encontrado na China de Xi Jinping, onde o regime adota uma doutrina imposta pelo presidente chinês. Trump já expressou sua admiração por Xi em várias ocasiões, considerando-o um amigo.

**Novos empreendimentos na Casa Branca**
Além das nomeações mencionadas, Trump também está promovendo uma grande obra na Casa Branca para a construção de um novo salão de festas, cujo custo é estimado em US$ 250 milhões (cerca de R$ 1,43 bilhão). Analistas acreditam que, com esse projeto, Trump busca deixar um legado físico na sede do governo americano.

Até agora, não há informações oficiais sobre o nome do novo salão, mas funcionários do governo sinalizaram que Trump pretende homenagear a si mesmo com essa nova instalação.

Trump também organizou um desfile militar para comemorar os 250 anos do Exército dos EUA, que coincidiu com seu aniversário. Em dezembro, seu governo anunciou as “Contas Trump”, contas bancárias com incentivos fiscais para crianças que funcionam como uma previdência para o futuro delas. Essas contas garantem uma contribuição inicial de US$ 1 mil (aproximadamente R$ 5,5 mil) do governo para recém-nascidos nos EUA entre 1º de janeiro de 2025 e 31 de dezembro de 2028, sendo abertas automaticamente quando a criança recebe seu número de Seguro Social.

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade