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Espaço indígena no Acre promove a integração de conhecimentos tradicionais e acadêmicos para revitalizar área afetada pelo fogo

Espaço para o povo Huni Kuin une saberes tradicionais à academia para reflorestar área degradada em Rio Branco. Foto: Renato Menezes/Rede Amazônica AC

Localizado no km 36 da Transacreana, em Rio Branco, o Huwã Karu Yuxibu realiza mutirões, vivências culturais e atividades de restauração florestal em colaboração com instituições educacionais e organizações ambientais. Foto: Renato Menezes/Rede Amazônica AC.

Este espaço, concebido pelo povo Huni Kuin, tem se fortalecido como um ponto de intercâmbio de conhecimentos, reabilitação ambiental e conexão com aqueles que buscam aprender. Recentemente, mais de 30 estudantes dos cursos de Engenharia Agronômica, Engenharia Florestal e Medicina Veterinária se uniram em um mutirão que combinou o plantio de cerca de 600 mudas com técnicas de restauração e ensinamentos culturais trazidos pelos residentes locais.

Situado nas proximidades da capital, esse centro se tornou um ponto de referência para estudantes, pesquisadores e visitantes que desejam compreender, na prática, como a floresta pode ser gerida, recuperada e coexistir com as comunidades indígenas. A atividade realizada em 6 de dezembro foi parte de esforços conjuntos da SOS Amazônia, da Universidade Federal do Acre (Ufac) e do Instituto Alok, reforçando os trabalhos em andamento desde que um incêndio criminoso devastou uma parte do território.

Atualmente, o espaço abrange 11 hectares, conta com um restaurante que oferece refeições a famílias em situação de vulnerabilidade e promove vivências durante mutirões e eventos culturais. Para o líder Mapu Huni Kuin, a criação do espaço refletiu uma responsabilidade que ele assumiu ao encontrar famílias da comunidade em condições vulneráveis.

Mapu enfatizou a importância da presença dos estudantes nas atividades de replantio, ressaltando o que ele chama de “consciência da terra”. “Esse chamado ao replantio é para que possamos nos tornar profissionais conscientes, garantindo água saudável e ar puro para que as futuras gerações tenham uma qualidade de vida melhor”, observou.

A recuperação da área está sendo acompanhada pela ONG SOS Amazônia, que tem implementado sistemas de irrigação, oferecido apoio técnico, realizado capacitações e está planejando a construção de um viveiro com capacidade para produzir 20 mil mudas anualmente.

Adair Duarte, gerente do programa de restauração da paisagem florestal, explicou que o espaço também se tornou um local de educação ambiental aberto ao público, especialmente devido à sua proximidade com a capital. “Já realizamos outros mutirões de plantio. O objetivo desse investimento em irrigação é garantir a sobrevivência, reduzir a mortalidade das mudas e aumentar a produtividade da área, especialmente durante o verão”, acrescentou.

Na área, as espécies plantadas têm a função de alimentar a comunidade e abastecer o restaurante, sempre com práticas agroecológicas. Adair destacou que o local está situado na bacia do Igarapé São Francisco, contribuindo para a preservação de suas nascentes. “Esse centro também atua como um espaço educativo, facilitando o fluxo de pessoas que desejam conhecer e interagir com o processo de restauração, produzindo alimentos sem o uso de fertilizantes químicos ou inseticidas”, enfatizou.

Para os estudantes, a vivência prática complementa o aprendizado acadêmico. A estudante de Engenharia Florestal, Lis Silva, que já participou de uma atividade anterior, compartilhou o impacto de sua experiência. “É incrível. Cada visita traz algo novo, permitindo-nos ver com nossos próprios olhos a importância do que estudamos”.

A estudante Elaine Almeida Fernandes, que estava no local pela primeira vez, expressou sua surpresa ao aprender sobre a técnica de cobertura vegetal. “Nunca tinha ouvido falar disso em sala de aula. Ao chegar aqui, foi uma experiência completamente diferente”.

Vanessa Batista, da Agronomia, ressaltou a relevância do sistema de irrigação. “Não se trata apenas de plantar; é preciso cuidar e zelar. É uma troca de saberes que eles compartilham conosco”.

Ivani Costa Leal, cozinheira e residente local, cuidou da alimentação durante os mutirões. “Estou aqui desde o início. Aprendi as receitas, como a macaxeira na folha e o mingau de banana com amendoim, sem leite e sem açúcar”, mencionou.

A organização do evento foi liderada pela professora Iwlly Cavalcante, que realiza atividades no espaço desde os tempos de estudante e agora mobiliza turmas inteiras para aprender na floresta. “Temos a oportunidade de aprender sobre regimes de chuva, controle de erosão e enriquecimento da área, além de garantir a soberania alimentar. As espécies plantadas aqui são baseadas na alimentação tradicional Huni Kuin”, declarou.

No Huwã Karu Yuxibu, plantar vai além da recuperação do solo; é um processo de reconstrução de laços, resgate de histórias e compreensão, na prática, de que a floresta se mantém viva quando as pessoas se movem em harmonia com ela. “É muito importante levar os alunos ao campo para vivenciar a experiência; aqui é uma sala de aula ao ar livre, uma floresta que se transforma e realiza extensão florestal na comunidade”, concluiu.

O líder Mapu Huni Kuin compartilha desse sentimento. “Se ninguém está fazendo, precisamos fazer, pois devemos ser esse exemplo”, finalizou.
*Por Renato Menezes, da Rede Amazônica AC

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade