** O Natal é um período repleto de alegria, reencontros e desejos expressos com olhos brilhantes. Em Ribeirão Preto (SP), parte dessa magia se materializa nos tronos do Papai Noel localizados em shoppings, onde crianças — e até adultos — compartilham aspirações que vão muito além dos tradicionais brinquedos.
Os pedidos mais frequentes seguem um padrão familiar: bonecas, carrinhos, videogames e, cada vez mais, gadgets tecnológicos. No entanto, há também aqueles que exigem uma boa dose de criatividade e sensibilidade por parte de quem veste a icônica roupa vermelha. Carros de luxo, cavalos, unicórnios coloridos e até tigres de verdade já apareceram na lista, desafiando a habilidade de cada Papai Noel em manter a magia do Natal sem decepcionar ninguém.
No RibeirãoShopping, o Papai Noel, interpretado por Eugênio Pio, de 65 anos, já perdeu a conta de quantas vezes precisou improvisar para preservar a fantasia. “Quando uma criança pede um cavalo ou até um tigre, é preciso ter muito cuidado. Uma garotinha me pediu um cavalo e pensei que fosse de pelúcia, mas logo ela esclareceu que queria um animal de verdade. Nesse caso, precisamos encontrar uma maneira delicada de explicar que não cabe no saco de presentes, que o animal precisa de espaço e que pode até danificar os outros brinquedos. Tudo deve ser feito com muito cuidado para não quebrar a magia”, relata.
Em outra ocasião, o pedido foi ainda mais peculiar: um unicórnio com chifres coloridos. “Já recebi pedidos assim algumas vezes, mas sempre se referindo a um de pelúcia. Já imaginou colocar um unicórnio real no saco de presentes do Papai Noel, mesmo que ele existisse?”
Para Eugênio, tão impressionantes quanto os pedidos extravagantes são aqueles extremamente simples, como uma peteca ou um bambolê, brinquedos que estão se tornando raros. Para ele, essa diversidade reflete o verdadeiro espírito natalino. “Às vezes, o que parece simples para nós, adultos, carrega um significado enorme para uma criança. É aí que reside a magia. Isso prova que a essência do Natal não está na grandiosidade do presente”.
**Capacidade de adaptação e empatia**
Manter a magia requer preparação emocional e habilidade para contornar situações. Eugênio observa que, frequentemente, os pais ajudam a guiar a conversa quando percebem que o pedido está além do real. No entanto, cabe ao Papai Noel encontrar uma forma de responder que preserve a fantasia. “O essencial é evitar um ‘não’ direto. É preciso contornar, adaptar, explicar. A criança deve sair dessa interação acreditando no que pediu. Essa é a verdadeira magia”, afirma.
Se as crianças frequentemente solicitam brinquedos, muitos adultos se aproximam do trono com desejos mais profundos. Eugênio revela que não é incomum receber pedidos relacionados à saúde, emprego ou estabilidade financeira. Uma das histórias que mais o tocou foi a de um casal que pediu ajuda para conquistar a casa própria. Um ano depois, eles retornaram ao shopping apenas para agradecer. “Eles voltaram para expressar gratidão após conseguirem comprar a casa. Eu disse que o mérito era deles, pela fé e persistência. Eu apenas ajudei a manter viva a esperança e a magia do Natal”, compartilha.
Outros encontros também permaneceram em sua memória. Um homem que estava se recuperando de um tratamento contra o câncer retornou no ano seguinte, curado, para tirar uma nova foto com o Papai Noel.
**Tecnologia, sonhos e compaixão**
No Shopping Santa Úrsula, Sebastião Campos, de 70 anos, assume o papel do bom velhinho e, embora não tivesse interpretado o personagem anteriormente, já completou três anos nessa função. Ele notou a evolução dos desejos das crianças. “Bonecas e carrinhos ainda estão presentes, mas agora muitas crianças pedem PlayStation, drones e os famosos bebês reborn. As crianças estão mais conectadas e exigentes, querendo estar por dentro de tudo”.
Entre os diversos pedidos que recebeu, um se destacou pela carga emocional. Sebastião recorda de um menino de 10 anos que se aproximou e fez um pedido que não podia ser embrulhado: ele desejava que seu pai, falecido, voltasse. Diante dessa situação, o Papai Noel teve que transformar o desejo em um gesto de acolhimento.
**Mais que um personagem**
Para ambos os Papais Noéis, vestir a roupa vermelha é mais do que assumir um papel; trata-se de oferecer afeto, escuta e acolhimento. Sebastião confessa que não consegue imaginar sua vida longe do trono natalino, dada a conexão que criou com as histórias e as pessoas que passam por ali. Eugênio compartilha dessa visão, enfatizando que o aspecto mais marcante da experiência não está nos pedidos, mas na interação humana. Muitas vezes, o que chega até o Papai Noel não é uma solicitação material, mas uma necessidade de atenção, conversa ou um abraço.
Após tantos encontros e histórias compartilhadas, o desejo de Eugênio encapsula o sentimento de ambos os personagens.