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A nova abordagem de Trump na política externa dos EUA gera apreensão na Europa

1 de 5 O presidente dos EUA, Donald Trump — Foto: EPA/Shutterstock/BBC

A recente estratégia de segurança nacional elaborada pela administração do presidente Donald Trump tem gerado inquietação entre os aliados mais próximos dos Estados Unidos, marcando uma mudança drástica em relação aos princípios que fundamentaram a política externa americana por décadas.

Um documento de 33 páginas, publicado há poucos dias, retrata o cenário global predominantemente como uma arena econômica, enfatizando acordos bilaterais e o nacionalismo econômico em lugar do multilateralismo e da promoção da democracia. Tom Bateman, correspondente da BBC News no Departamento de Estado dos EUA, observou no podcast The Global Story que essa abordagem reflete as “vertentes mais ideológicas” do governo Trump.

As repercussões dessa estratégia também se estendem à América Latina, influenciando as relações dos EUA com os governos de tendência conservadora, bem como provocando uma nova interpretação da Doutrina Monroe, que, remete ao presidente do século 19 que defendia a primazia dos EUA na região e a recusa de intervenções europeias. Essa versão atualizada da doutrina poderia reafirmar a região como o “quintal” americano.

Outro ponto de preocupação é a ausência de críticas a adversários tradicionais como Rússia e China, enquanto a retórica mais agressiva é direcionada à Europa, o que tem gerado alarme nas capitais europeias.

O documento afirma que a Europa pode se tornar “irreconhecível em duas décadas”, devido à adesão do continente a instituições multilaterais e suas políticas migratórias, que são vistas como uma ameaça à “identidade ocidental”. A estratégia categoricamente menciona que os países europeus enfrentam o que denomina de “eliminação civilizacional”.

Líderes europeus expressaram, em conversas privadas, sua “horror” em relação a esse conteúdo, como destacou Bateman. “Eles não se surpreendem com a ideologia de algumas facções do governo, mas ver isso formalizado em um documento político é alarmante”, acrescentou.

A reação na Europa foi rápida e abrangente. O jornal francês “Le Monde” chamou o rompimento de um “divórcio”, indicando uma ruptura histórica com o período pós-Segunda Guerra Mundial. “O divórcio está consumado, resta apenas a divisão de bens”, informou a publicação.

Ainda mais revelador foi o comentário do jornal conservador francês Le Figaro, que destacou a contradição no documento ao defender, de um lado, o “não intervencionismo” e, do outro, o apoio explícito a intervenções em países europeus. A estratégia menciona a intenção dos EUA de fortalecer partidos de oposição na Europa, o que implica apoio a grupos de extrema-direita, como o Alternative für Deutschland (AfD) na Alemanha e o Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen, na França, que defendem o nacionalismo econômico e uma postura rigorosa em relação à imigração, sendo rotulados como “partidos patrióticos”.

A abordagem dos EUA em relação à Europa se assemelha à sua postura na América Latina, conforme analisou Bateman. Na Argentina, o apoio econômico de Trump ao governo de Javier Milei, pouco antes de eleições legislativas, foi interpretado como uma interferência. O mesmo padrão se repetiu em Honduras e no Brasil, onde Trump criticou os tribunais que condenaram o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O documento introduz um “corolário Trump” à Doutrina Monroe, destacando o continente americano como uma prioridade na política externa dos EUA. O governo busca “garantir que a região permaneça estável e bem governada para evitar migrações em massa para os EUA”, segundo o texto. Essa atenção renovada visa contrabalançar a influência da China na América Latina, embora Pequim não seja mencionada diretamente.

Enquanto a estratégia não aprofunda a dimensão militar, ações como bombardeios aéreos contra supostos narcotraficantes e a presença de navios de guerra dos EUA no Caribe indicam uma possível ameaça de uso da força.

A deterioração das relações entre EUA e Europa é evidente, com sinais claros desde janeiro, quando o vice-presidente JD Vance criticou as democracias europeias na Conferência de Segurança de Munique. A guerra na Ucrânia também tem sido um fator de tensão, com o documento sugerindo que a Europa não compreendeu totalmente as dinâmicas de poder envolvidas e que os EUA precisam se empenhar mais para estabilizar a região.

A União Europeia é acusada de dificultar os esforços dos EUA para encerrar o conflito na Ucrânia, e há uma pressão para que os europeus aceitem uma posição que poderia ser vista como uma capitulação em relação à Rússia. A estratégia foi recebida positivamente pela Rússia, que a descreveu como “amplamente consistente” com sua própria visão.

Essas novas diretrizes já estão reformulando os debates em Washington e em várias capitais europeias. As implicações para a Ucrânia, para as relações entre EUA e Europa e para a ordem global ainda estão se desenrolando. Contudo, uma coisa é clara: a administração Trump está determinada a redefinir as prioridades da política externa americana e espera que seus aliados se ajustem a essa nova realidade.

*Com informações adicionais do podcast The Global Story, do Serviço Mundial da BBC*

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade