O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil reconhece um arrefecimento gradual da atividade econômica e um desempenho positivo da inflação, mas não demonstra uma disposição clara para iniciar um ciclo de redução da Selic já em janeiro. Essa é a interpretação que economistas fazem da ata do Copom divulgada na terça-feira (16). A postura cautelosa se deve à persistência de pressões na demanda. Atualmente, a taxa de referência está fixada em 15% ao ano, um patamar que a autoridade monetária considera adequado para alinhar a inflação à meta de 3%.
Conforme o documento, o Banco Central observa que o cenário internacional continua incerto devido à política econômica dos Estados Unidos, o que exige prudência por parte dos países emergentes. No âmbito interno, a análise indica que os indicadores estão apresentando um caminho de moderação no crescimento econômico, enquanto o mercado de trabalho continua resiliente à desaceleração.
“Nas divulgações mais recentes, a inflação geral e os índices subjacentes mostraram sinais de arrefecimento, mas ainda se mantêm acima da meta inflacionária. As expectativas de inflação para 2025 e 2026, conforme levantamento da pesquisa Focus, permanecem superiores à meta, situando-se em 4,4% e 4,2%, respectivamente”, destacou o Copom.
Atualmente, a inflação, medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), é de 4,46% nos últimos 12 meses, ligeiramente abaixo do teto da meta, que é de 4,5%, considerando a margem de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. No horizonte relevante da política monetária, a inflação deve se aproximar da meta apenas no segundo trimestre de 2027.
De acordo com Caio Megale, economista-chefe da XP, o Banco Central comunicou uma mensagem de “ainda não é hora de relaxar”, mesmo reconhecendo que a atividade econômica está se desacelerando conforme o previsto e que a inflação apresentou resultados melhores do que se esperava no início do ano. “A política monetária está em funcionamento. Contudo, os fatores inflacionários continuam sendo adversos, demandando cautela no futuro”, observa.
Megale acredita que a ata sugere a necessidade de manter a taxa Selic nos níveis atuais (15% ao ano) por mais tempo, a fim de fortalecer o processo de desinflação em andamento. “Em suma, o Comitê não parece disposto a iniciar um ciclo de cortes nos juros em janeiro, apesar das melhorias recentes no cenário inflacionário”, argumenta.
O economista-chefe da XP enfatiza que o Copom continua avaliando o ambiente externo como “incerto”, embora tenha notado uma percepção de redução no crescimento do consumo das famílias no cenário interno. Além disso, a visão do Banco Central é de que o mercado de trabalho se mantém “relativamente apertado”, mesmo com alguns indícios de moderação.
Sobre a inflação, Megale ressalta que a autoridade monetária enfatizou que as leituras recentes foram melhores do que o esperado pelo Comitê, mas as expectativas “permanecem acima da meta em todos os horizontes”. “Ademais, a ata destacou que os fatores inflacionários ainda são desfavoráveis.”
Ele também explica que, ao afirmar que “o cenário exige uma política monetária bastante contracionista por um período prolongado”, o Copom transmite uma mensagem clara de que mais tempo e informações são necessários antes de iniciar um ciclo de flexibilização monetária. “Portanto, acreditamos que a ata divulgada hoje é consistente com nossa previsão de que o Banco Central começará a reduzir os juros em março, projetando seis cortes consecutivos de 0,50 p.p., com a taxa Selic encerrando 2026 em 12,00%.”
Rafaela Vitoria, economista-chefe do Inter, concorda que um corte de juros em janeiro parece menos provável e que isso dependerá de uma mudança na perspectiva do Comitê, impulsionada por uma nova melhora incremental no cenário inflacionário, incluindo uma queda contínua das expectativas, que ainda é uma preocupação central para o Copom.
Para ela, uma mudança significativa na ata é o reconhecimento da melhoria no cenário atual, com um ambiente externo mais favorável, especialmente em relação ao câmbio, o que contribui para a queda da inflação de bens industriais e alimentos. “Além disso, os indicadores de atividade mostram uma moderação, refletindo na desaceleração da inflação de serviços, ainda que de forma lenta”, conclui.