A atuação no Federal Reserve raramente atrai atenção da mídia. O presidente, atualmente Jerome Powell, cujo mandato chega ao fim em maio, recebe destaque, enquanto os outros 11 integrantes do comitê de votação permanecem à sombra. Contudo, recentemente, esses membros têm demonstrado um aumento na inquietação. Na semana passada, quando o Fed decidiu reduzir as taxas de juros, a votação contou com três votos contrários, o maior número desde 2019.
Esse cenário pode ser visto como um avanço positivo, mas também sinaliza uma possível mudança na operação do Banco Central dos EUA e na sua influência sobre a economia. Após a crise financeira, o Fed implementou diversas reformas internas, incluindo a introdução de argumentos em formato de “advogado do diabo” no Tealbook, um relatório elaborado para auxiliar nas decisões sobre as taxas de juros. No entanto, o pensamento de grupo ainda é uma característica marcante do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC), que é responsável pelas votações sobre a taxa básica de juros.
Em 2021, com a inflação superando os 6%, houve um intenso debate público acerca da política monetária, mas isso não se refletiu nas votações unânimes do comitê, que, por oito encontros seguidos, manteve as taxas em zero. A decisão do Fed, anunciada na semana passada, de cortar as taxas para estimular o mercado de trabalho, não foi simples. Pessoalmente, eu não teria optado pela redução, visto que a inflação está bem acima da meta do Federal Reserve e a economia já conta com suporte robusto proveniente do mercado de ações, condições financeiras relaxadas e um déficit orçamentário crescente. Contudo, não tenho certeza se essa é a abordagem correta, e pessoas que admiro apoiaram a redução.
Um processo de deliberação saudável não disfarça as divergências por meio de um consenso artificial; ele permite que as pessoas expressem suas opiniões, debatam e, finalmente, votem. Isso foi exatamente o que ocorreu quando três membros do Comitê de Mercado Aberto discordaram da decisão do comitê na última reunião. Nos últimos seis meses, a média foi de dois votos dissidentes por reunião, o que representa quatro vezes a média histórica desde 1990.
Curiosamente, muitas dessas dissidências vieram do conselho de administração, formado por sete membros, que não registrou um único voto contrário entre 2005 e 2024. Embora esse tipo de decisão polêmica tenha sido raro no Federal Reserve desde os anos 1980, é comum em outros bancos centrais. O Banco da Inglaterra, por exemplo, frequentemente enfrenta votações apertadas em decisões desafiadoras de política monetária.
As dissidências também podem servir para reforçar a independência do Federal Reserve. A Lei Bancária de 1935 estabeleceu mandatos de 14 anos para os governadores e determinou que esses mandatos seriam escalonados, evitando que um único presidente exercesse influência excessiva sobre a política monetária.
Mesmo depois da crise financeira de 2008, que abalou a credibilidade do Fed, suas declarações ainda são recebidas com notável reverência. Anúncios sobre ações futuras têm um impacto imediato nos mercados, como se o grande e poderoso Oz tivesse falado.