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A Visão Profética de Stephen King em ‘O Sobrevivente’

Ben Richards enfrenta uma crise financeira, sua filha está doente e ele não consegue encontrar trabalho. Em um regime totalitário, a única maneira de ganhar uma quantia significativa rapidamente é através de um programa de televisão de grande audiência, onde os participantes arriscam suas vidas para entreter o público. Trata-se de uma luta por sobrevivência transmitida ao vivo em horário nobre. É interessante notar como a ficção científica de tempos passados, embora em contextos diferentes, parece alimentar a programação atual de qualquer canal.

“A parte mais insana e premonitória do livro que Stephen King criou em 1982 é que estamos em 2025, em um mundo dominado por reality shows e influenciadores”, afirma Glen Powell, que interpreta Ben Richards em “O Sobrevivente”. “Tudo se resume a conquistar audiência e seguidores.” Quando indago se um personagem como o dele seria viável na realidade, ele não hesita: “Não estamos longe dessa realidade”, diz. “Quando o entretenimento se transforma em uma moeda de troca e há um público disposto a pagar por isso, infelizmente, tudo é possível.”

O diretor Edgar Wright, responsável pela adaptação, é enfático. “Estamos mais próximos de ter um Ben Richards do que nunca”, reflete, ressaltando as condições apresentadas por King em sua obra, que se mostram mais relevantes do que nunca. “Se a discussão gira em torno do que está no ar, do espírito da época, então prever esse futuro é um reflexo de como as pessoas se sentem, consciente ou inconscientemente.” Ele acrescenta: “O livro que Stephen King escreveu sob o nome de Richard Bachman se passa em 2025, então a ironia de nosso filme ser lançado agora não passou despercebida.”

Bachman foi o pseudônimo escolhido por King para publicar obras que se distanciam do terror mais intenso que seu nome evocava. A ideia de usar um alias surgiu quando seu editor expressou preocupação sobre inundar as livrarias com muitos livros de sua autoria. Com a mente criativa e produtiva de King, dividir a prateleira consigo mesmo por meio de um pseudônimo parecia uma solução astuta.

Inicialmente, King lançou quatro livros sob o nome Richard Bachman: “Rage”, em 1977, seguido por “A Longa Marcha” (1979), “A Auto-Estrada” (1981) e, finalmente, “O Sobrevivente” (1982), que também é conhecido em alguns locais como “O Concorrente”. O manuscrito original foi rascunhado por King em 1973, um ano antes de ele publicar “Carrie”, seu primeiro romance, e permaneceu inédito por quase uma década.

Em 1985, um vendedor de livraria descobriu por acaso a conexão entre Bachman e King, revelando a vida dupla do autor. “Louca Obsessão”, que originalmente seria lançado sob o nome de Richard Bachman, acabou sendo publicado como uma obra de King. Curiosamente, quando Arnold Schwarzenegger estrelou a primeira adaptação de “O Sobrevivente”, cinco anos após sua publicação e dois anos após a revelação da identidade de seu autor, o pôster do filme creditava a obra a Richard Bachman, não a Stephen King.

“Comecei a ler Stephen King aos 12 ou 13 anos”, recorda Wright. “Tinha uma antologia com os quatro livros de Bachman, lançada depois que o pseudônimo foi revelado.” Quando pergunto se seu primeiro contato com “O Sobrevivente” foi com o livro original ou a adaptação com Schwarzenegger, o diretor responde de forma direta: “Com o livro, porque o filme era classificado como proibido para menores de 18 anos no Reino Unido, não consegui assistir quando foi lançado.”

Embora a ação do livro se passe em 2025, Wright optou por não estabelecer uma data específica em sua versão. Concebido como uma alegoria em um futuro distópico, “O Sobrevivente” previu tecnologias que hoje fazem parte de nossas vidas. Para evitar que certas ideias de King fossem reduzidas ao domínio da ficção científica, o diretor decidiu não modernizar todos os aspectos do livro, optando por uma estética retrofuturista. A disparidade temporal é sugerida ao mostrar um abismo crescente de riqueza: enquanto as áreas mais ricas da cidade são tecnologicamente avançadas, as mais pobres regrediram. “Mantivemos parte da tecnologia analógica”, observa Wright. “Com VHS, fitas de áudio, miniDV, envelopes e caixas de correspondência. Estou cansado de ver smartphones nos filmes.”

Retornando ao livro, o futuro de “O Sobrevivente” reflete a leitura que Stephen King fazia da América fraturada após o fiasco político da Guerra do Vietnã, acentuada pelo pessimismo de um país em busca de uma nova identidade na era Reagan. Décadas depois, esse mesmo sentimento ecoa nos escândalos do governo Trump e na percepção de que as mudanças rumo a um estado autocrático só ocorrerão com o clamor popular.

O ator Lee Pace prefere, por ora, manter o futuro sugerido pela obra no campo da ficção. “‘O Sobrevivente’ é uma sátira que Stephen King escreveu há mais de 40 anos sobre um 2025 fictício”, diz o ator, que no filme interpreta o caçador Ewan McCone, uma máquina assassina implacável apresentada ao público como o verdadeiro herói. “Temos a sorte de não viver em um mundo onde inocentes são executados ao vivo no programa mais popular do país.” No entanto, ele vê no filme uma reflexão moral: “O cinema é um espaço seguro para explorar um mundo especulativo onde podemos refletir sobre a realidade em que vivemos.”

“Não há dúvida de que ‘O Sobrevivente’ aborda o mundo e a experiência que estamos vivenciando atualmente”, completa Powell. “Trata-se de como lidamos com o poder, com as notícias, com os heróis e vilões que criamos e com as narrativas que contamos, sejam reais ou fictícias.” Quando indago se filmes abertamente políticos como “Pecadores”, “Uma Batalha Após a Outra” e “O Agente Secreto” ajudam a expressar essa urgência do público, o ator se anima.

“Em suas melhores manifestações, os filmes refletem o tempo em que vivemos”, explica. “Preciso me questionar sobre o motivo de estarmos fazendo este filme, e no caso de ‘O Sobrevivente’, estamos em um momento em que quero acreditar que o cidadão comum se levantará contra o abuso de poder.” Ele menciona a influência de alguns de seus filmes favoritos, como “Gladiador”, “Minority Report” e “Coração Valente”, no tom de “O Sobrevivente”: “A vontade de desafiar o opressor está no ar.”

Darwin Andrade – Jornalista do JMV News
Jornalista

Darwin Andrade