Quase cinquenta anos após seu assassinato em Búzios (RJ), Ângela Diniz retorna ao foco das atenções. A socialite mineira, que se destacou nos anos 1970 por sua beleza e estilo de vida independente, é a personagem central da minissérie “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada”, que chega ao streaming da HBO Max nesta quinta-feira (13). Com seis episódios, a série é dirigida por Andrucha Waddington e traz Marjorie Estiano no papel principal.
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Uma mulher à frente de sua época
Nascida em Curvelo, Minas Gerais, em 1944, Ângela cresceu em um lar tradicional e, desde cedo, foi preparada para ser a dama perfeita da elite mineira. Aos 17 anos, casou-se com Milton Villas Boas, que era 14 anos mais velho. O casamento terminou em desquite — na época, o divórcio ainda não era legalizado — e ela passou a ser vista como uma mulher que rompesse com os padrões sociais. Livre das amarras convencionais, Ângela viveu intensamente, teve outros relacionamentos e se tornou uma figura frequente nas colunas sociais do Rio e de Belo Horizonte. No entanto, sua independência incomodava e, mais tarde, seria usada contra ela.
O crime na Praia dos Ossos
No dia 30 de dezembro de 1976, Ângela foi assassinada a tiros dentro de sua residência em Búzios pelo namorado da época, Raul Fernando do Amaral Street, conhecido como Doca Street, com quem mantinha um relacionamento conturbado e violento. Após o crime, Doca fugiu e foi julgado somente três anos depois. Durante o primeiro julgamento, em 1979, a defesa de Doca, chefiada pelo advogado e ex-ministro do STF Evandro Lins e Silva, se baseou na tese da “legítima defesa da honra”, argumentando que ele agiu movido por paixão e para proteger sua reputação. Esse discurso transformou Ângela em uma ré: ela foi rotulada de “mulher fatal”, “prostituta de luxo” e “ameaça à moral”. Doca foi condenado a apenas dois anos de prisão e deixou o tribunal no mesmo dia. A resposta social foi rápida, com movimentos feministas adotando a frase “Quem ama, não mata” e acampando em frente ao fórum de Cabo Frio (RJ), exigindo justiça. Em um novo julgamento, em 1981, Doca finalmente foi condenado a 15 anos por homicídio qualificado.
De símbolo a redescoberta
Nos anos seguintes, a trajetória de Ângela Diniz se tornou um marco na luta contra a violência de gênero e o silenciamento feminino. O caso inspirou o podcast “Praia dos Ossos” (Rádio Novelo, 2020), o filme “Ângela” (2023), com Ísis Valverde no elenco, e agora a minissérie da HBO Max. A nova produção busca humanizar a figura que foi reduzida a um estereótipo. O diretor Andrucha Waddington comentou em coletiva que a história precisava ser contada há 49 anos. Marjorie Estiano, que interpreta Ângela, revelou que o papel teve um impacto profundo em sua vida. “Interpretar Ângela foi um processo psicanalítico. Uma personagem que se permite o prazer é extremamente relevante na sociedade brasileira. Muitas vezes, sentimos culpa por desfrutar da vida, e Ângela se permitia isso. A beleza da vida está em vivê-la plenamente”, afirmou.
Um retrato ainda necessário
Em 2023, o Supremo Tribunal Federal declarou a tese da “legítima defesa da honra” inconstitucional, encerrando oficialmente uma era de permissividade judicial. Contudo, os números permanecem alarmantes: apenas no primeiro semestre de 2025, o Mapa Nacional da Violência de Gênero registrou 718 feminicídios no Brasil.